quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Plural – o outro, o mesmo | 2013

 
 
 
 

Nessa Edição

 
Flash Back por Luciana Nepomuceno
 
 
 
 
Entrevista
Hoje é Dia de Marias

Com a artista Plástica Maria Cininha
 
 
Questão de Tonalidade
Por Jane Lauxen
 
 
Personagem
Borges, o mesmo, o outro!
Por Lunna Guedes
 
 
 
 
 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Borges, o outro – o mesmo!

 

Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi
teve origem em minha emoção
” 

— Jorge Luis Borges—


 

borges

 

 

Enquanto a chuva caí lá fora leio Borges —  esse outro, o mesmo. Esse homem, o poeta.

O livro “poesia” ocupa os olhos, a pele, a alma. O sentir. Vai me desabrigando —  o cenário esbranquiçado da Paulicéia de Mário vai ficando distante — de repente, sou ocupada por outros elementos: a Praça do Retiro, figura presente nos versos do poeta que passava por ali em suas caminhadas a caminho do Café Tortoni que ainda hoje tem diversas citações do poeta e sua mesa está lá, em compasso de espera – como se o homem/poeta fosse aparecer a qualquer momento.

A Buenos Aires de Borges, contudo, é outra - como ele mesmo faz questão de dizer em seus versos. Talvez seja uma cidade inventada pelos olhos do homem que com o passar dos dias se recusou a ver o que não era de seu agrado.

 

Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.
Recordo o ruído de ferros do portão gradeado.
Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia.(...)
Recordo o tempo generoso, as pessoas que chegavam sem
avisar.(...)
Recordo o que vi e o que me contaram meus pais. (...)
Recordo as carroças do interior no pó do Once.
Recordo o Almacén de La Figura na rua de Tucumán.
Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.
Lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.

 

Com 15 anos, Borges foi morar na Europa - onde ficou por sete anos, tempo suficiente, para, ao retornar a sua cidade natal - encontrar uma nova Buenos Aires. A cidade havia crescido rapidamente: as velhas casas substituídas por prédios, as avenidas aumentaram. Surgiram bairros populares formando-se assim, a metrópole moderna que não tem espaço na poesia de Borges que exibe ao nosso olhar uma Buenos Aires de alta emoção estética vinda dos bairros humildes. É tudo muito escuro e denso. Nostálgico e metafísico. Fica fácil perceber que Buenos Aires para ele, mais que uma cidade é um país inteiro.

 

"Buenos Aires sempre foi uma cidade múltipla, feita de retalhos de povos transformados em subúrbios - daí cosmopolita” – explicou Borges.

 

Quando Borges era menino, Palermo, bairro onde viveu era um lugar calmo, silencioso e arborizado. Ficava no limite da cidade e o campo. Era um subúrbio distante e perigoso à noite, ou segundo o poeta - "era um sórdido arrabalde norte da cidade". Palermo foi imortalizada em muitos contos e poemas do autor.

Sua obra desenhou uma espécie de cidade imaginária, erguida a partir da Buenos Aires vivida e lembrada. Para sabê-la é preciso mergulhar nas linhas do homem/poeta que nos apresenta pequenos pedaços da cidade que ele inventou. Em alguns momentos tudo parece uma pintura a nos causar sensações e percepções acerca de um cotidiano que não nos pertence e assim está lá a nos tomar de assalto.

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu na Rua Tucumã, bem ao centro de Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899, na casa de seu avô paterno. Porém, foi em Palermo, casa onde morava com os pais, que viveu sua infância e ali com apenas 6 anos decidiu que queria ser escritor. Menino com grandes óculos passou maior parte do seu tempo na biblioteca do pai, como ele mesmo afirma em um de seus muitos ensaios: “Se tivesse de indicar o evento principal de minha vida, diria que é a biblioteca de meu pai. Na realidade creio nunca ter saído dessa biblioteca”.

Aos oito anos rabiscou suas linhas primeiras – escrevendo o conto “la visera fatal”. Oitenta anos mais tarde. Cego. Velho. Com o peso da idade sob os ombros. Esgotado – seguia ditando palavras para a mãe, à secretaria e depois para Maria Kodama com quem se casou nos últimos instantes de vida.

Borges deixou de ser um leitor em 1955 – mas preservou o olhar estreito. Nada do que havia conquistado se perdeu. As palavras seguiam em sua mente. Sua genialidade permaneceu intacta até o último segundo “quando algo te acaba, precisas saber como iniciar” – e ele soube. Voltando aos estudos – reinventando a si mesmo. O homem alcançou um novo estilo.

Havia muito de outros poetas em sua escrita. Havia muito de si – o outro, o mesmo. Borges acrescentou elementos novos a uma escrita cada vez melhor. Temas simples como o subúrbio portenho ou o tango ganharam perspectivas inéditas através da alma que parecia preservar como herança tudo que o homem havia visto durante o tempo em que seus olhos colhiam imagens. O homem morreu sem receber muitos agrados. Sem ser devidamente aclamado. Morreu em 1986 sem que o soubessem de fato modernista ou poeta de vanguarda.

Morreu dizendo ao mundo que era um homem que pouco tinha lido e quando o fez, leu sempre os mesmos livros. Morreu dizendo ter escrito apenas cinco ou talvez seis livros. Dante, Shakespeare e Vírgilio – homens dotados de boas palavras.

A consagração do poeta veio em 1935 – mas ele não esperava pelo sucesso. Queria a escuridão. O silêncio – a quietude. A sua tão aclamada solidão – o único deus para quem rezou seguidas vezes ao longo de toda a sua vida.

Borges esperava morrer no anonimato. Sem que dessem por ele. Não foi assim… O ápice veio com Aleph que para o poeta era uma espécie de bibliografia do homem que chegou a anunciar a data de seu fim. O homem cometeria suicídio anunciou uma carta publicada num jornal argentino. Mas a data passou e o homem lá permaneceu, segundo ele mesmo disse “por covardia”. Não foi além, preferiu esperar pelo fim como fazemos todos.

O poeta seguiu com suas linhas – sempre perfeitas, concisas e mágicas – deixando o homem liberto da velhice e até mesmo da cegueira.

 

 

“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu.
Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó”
— Jorge Luis Borges —

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Questão de tonalidade

Por Jana Lauxen

 

O problema era a cor do rapaz.
Não dava para tolerar!
Não naquela família, de casta tão legítima.
Nunca, nem uma única vez desde sua origem, algum membro do clã Silva e Souza envolveu-se com alguém daquela coloração.
E agora a filha caçula e mais problemática vinha com essa novidade: namorar um sujeito de cor.
Logo daquela cor!
O pai, quando conheceu o rapaz, foi incapaz de emitir uma palavra.
Passou a noite inteira emburrado, resmungando, os braços cruzados a encarar o dito-cujo.
A mãe até tentou fingir simpatia, pelo menos educação, mas tudo que demonstrou com seus trejeitos e expressões foi nojo.
O irmão mais velho negou-se a dar a mão em cumprimento ao rapaz, e saiu batendo porta, amaldiçoando aquela laia imunda.
Até a empregada manteve-se cuidadosa, para não encostar-se ao garoto enquanto servia o jantar.
Quando o menino foi embora, os pais sentaram para conversar com a filha:
— Não pode.
— Não dá.
— Por quê?
— Você chegou a reparar na cor dele?
— O que é que tem?
— Como assim, o que é que tem? Tem que a cor dele é muito diferente da sua, e todo mundo sabe que pessoas da raça dele não podem, não devem e não precisam se misturar com pessoas da nossa raça.
A filha começou a chorar.
O que iria fazer, se não podia ver um alemão bem branco e bem rosado que gamava?

 


 

Jana Lauxen é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009). Colunista da revista Café Espacial, publicou pela Mojo Books a historieta Pela Honra de Meu Pai. Publicou em mais de doze coletâneas, e organizou seis em parceria com outros escritores. Foi editora da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3:AM Magazine, e também uma das idealizadoras do projeto
E-Blogue.com (in memorian). Atualmente trabalha na Editora Multifoco e prepara-se para lançar seu segundo livro, O Túmulo do Ladrão.

 

 

E-mail para contato: multifoco.jana@gmail.com

Site: www.janalauxen.com

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Hoje é dia de Marias

..:  E.n.t.r.e.v.i.s.t.a  :..

 

maria cininha

 

Não existe uma leitura ideológica nas colagens e desenhos de Maria Cininha, mas um reforço da postura de felicidade que se encontra nas várias condições de vida. Condições essas que se formam pelo olhar atento às reações e às transformações do corpo fantástico. Em suas obras, as bonecas sorriem, choram e podem chegar ao extremo do deboche. Os animais, também, em formas mínimas ou grotescas, demonstram uma produção de desejo por conta de um conforto íntimo com seu ambiente.

As formas vazias apresentam os vazios plurais – esses que a gente entende sem precisar de tradução. E as cores deixam seus estados populares a fim de projetarem um lugar em que o conto e o dia-a-dia se naturalizam em uma mesma paisagem.

 

marias

 

Como e quando apareceram as Marias?

Eu habito um mundo feminino e gostaria de falar dele, mas de maneira diferente. Então aos poucos fui buscando uma forma que fosse alegre, brincalhona, irreverente, colorida, poética, as vezes seria e triste, como qualquer um de  nós. Mas que sua forma literalmente fosse inusitada; não ilustração de revista feminina, e sem apelo feminista. As Marias são as meninas que moram dentro de cada mulher.

A primeira Maria surgiu, em 2010, pela luta por uma árvore, de uma calçada do bairro onde moro. Um Ipê amarelo que foi cimentada até o colo e subindo pelo seu tronco por 10 centímetro, e os sujeitos que fizeram isso ainda pintaram o cimento de verde. Naquela situação de procurar órgãos públicos, policia ambiental e até deputado nasceu a serie “Marias” meninas atenta ao que acontece ao seu redor, brincalhonas, mas que quando precisam vão à luta.

 

Como é a cidade das suas Marias?

A cidade das minhas Marias é São Paulo. A cidade onde nasci que tento achar que é dispensável, mas que esta impregnada em tudo que eu faço. Ela é o avesso do que eu espera e sonhava  dela como cidade, mas como diz a canção “o coração tem razão que a própria razão desconhece”, me rendo a ela. As Marias são  as meninas que moram que moraram e que ainda vão nascer nesta cidade. Quando elas falam de calçadas, de amores perdidos, de horário de verão, de festas, da falta de água, da chegada da primavera, do canto do sabiá, elas falam a partir de um lugar: São Paulo. Mas isso não que dizer que não seja espelho de outras tantas outras cidades do mundo.

 

Você é de São Paulo e vive em São Paulo. 

Essa cidade tem algum encanto especial pra você?

Costumo dizer que São Paulo é um amor bandido. Aquele amor a quem você entrega tudo e ele não retribuí nada. Mas, é um exagero, não é sempre assim. Eu tentei morar fora de São Paulo e depois de seis anos estava de volta, e pretendo nunca mais sair. Depois é a terra que meus avôs escolheram quando aqui chegaram, a terra que nasceram meus pais e a terra que nasceram meus filhos. A minha história esta sendo escrita aqui. Assim nesta cidade estão minhas experiências afetivas e momentos significativos da minha vida. Fora tudo isso eu tento me reconhecer aqui, no entorno material que se modifica constantemente que apaga sinais, vestígios, cria lacunas, imagens que oscilam entre a recordação e o esquecimento total. Sofro pela falta de políticas que preservem espaços históricos da cidade, porque antes de tudo preservar significa (re)apropriar-se, resgatar um sentido. Por este motivo estou de mudança para um Studio na Praça da Republica no centro de São Paulo. Uma escolha que vem da minha busca por um encontro afetivo, um olhar evocativo, sonhador, por esta cidade, “minha cidade” com sentido de “lugar de vida”.

 

Como a arte entrou em sua vida?

Eu acho que desde garota, quando o lugar que mais gostava de brincar era no barracão de ferramentas do meu pai. Mas a vida me levou para outros caminhos e durante anos fui empresaria, fiz faculdade e mestrado na maturidade, as coisas andam meio fora de hora para mim. Mas paralelo ao meu caminho profissional estava à arte. Li muito fiz curso de pintura, desenho, frequentava exposições e museus. Até que aos 46 anos resolvi fazer a Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

O recorte e colagem vieram mais tarde. O papel sempre foi o meu suporte preferido. A tela eu descartei logo no inicio dos meus estudos de arte. Mas a colagem entrou na minha vida quando fiz a dissertação de mestrado.

Nela pesquisei criatividade e envelhecimento, mas precisamente se a criatividade diminuía com passar do tempo, ou seja, se era mais uma perda do envelhecimento. Para esta pesquisa trabalhei com obras de velhos pintores que morreram com mais de 80 anos, um deles Henry Matisse. Matisse teve um problema de saúde que o deixou nos seus últimos 14 anos de vida em uma cadeira de rodas ou uma cama, que o impedia de pintar. Ele em fez de desistir e se conformar com sua incapacidade se volta para os seus famosos recorte e colagem. Mesmo sem saber da sua história de superação, o colorido, as formas desenhadas pela tesoura de Matisse são muito fáceis de amar.

No começo fiz releituras dos recortes de Matisse, entretanto buscando minha própria voz na técnica. Procurei uma arte alegre, lúdica e colorida. Passei por varias fases: bichos, passarinhos, retratos, as Marias e outras que virão, mas sempre com o foco no lúdico.

A arte que crio me diverte me faz sorrir e por com seguinte faz o mesmo com as outras pessoas. Dos cinco anos no Flickr e nos três anos no blog, e agora no Facebook noventa por cento dos comentários referem que meu trabalho provoca sorrisos e encanta. É um feedback fantástico, não poderia esperar nada melhor.

 

Em seu blogue encontramos uma espécie de “mundo para as Marias” – como surgiu esse universo paralelo?

Como disse anteriormente a primeira Maria surgiu, em 2010 em uma luta pela vida de uma árvore, de uma calçada do bairro onde moro. Com o tempo foram se engajando em outros assuntos da vida, da cidade, do contexto. “O mundo das Marias” contêm marcas, não necessariamente biográficas, mas muito pessoais, tento dar a elas a individualidade de um personagem literário, mas nem sempre consigo. Minha preocupação é que elas sejam lúdicas, coloridas, poéticas, leves e brincalhonas, que tenham personalidades que saibam lidar com os eventos, com suas dores e alegrias e que provoquem em quem as conhece a lembrança da leveza brincalhona das crianças.

 

Como é o seu dia a dia criativo?

Cada dia para mim é diferente, não tenho uma rotina rígida. Mas há algumas constantes. Cafezinho, leitura de paginas do livro que estiver lendo no momento, passeios com o cachorro, necessito de silencio e concentração. Um trabalho de colagem fica por dias, na minha cabeça, faço anotações, escolho cores e texturas, às vezes faço pesquisa relativa ao tema. Importante no caso de um trabalho criativo e dinâmico é preservar a capacidade de admiração quem olha. Eu pratico e exercito muito o meu “olho de menina” e o importante não ter acanhamento. Assim a beleza e a inspiração podem estar em qualquer lugar.

Vale ainda lembrar que na colagem se lida muito com a casualidade e eu prezo muito isso. É uma técnica espontânea, há muitas coincidências e acasos e acidentes, com alguma frequência. Um recorte que se move sobre a folha, ou o modo cai, os retalhos que seriam descartados, pode mudar todo um trabalho.

domingo, 10 de novembro de 2013

Uma crônica verdadeira

Por André Auke

 

A verdade é uma grande mentira. Vamos aceitar esse fato. Na real, a mentira é a nossa grande amiga e companheira. Sejamos honestos pelo menos uma vez na vida.
Quantas vezes repetimos a bonita frase: “mesmo que doa, eu prefiro a verdade”?

Mentira! Mentira! Pô, você sabe disso, eu sei disso, todo mundo sabe disso. Mas, mesmo honestamente, querendo dizer a verdade, estamos sempre mentindo. É ou não é a nossa grande companheira?
É possível que nem mesmo sozinho aí, lendo essas palavras, você vai assumir a verdade. Vai como sempre, e isso é um ato natural, mentir para si mesmo. Isso não é uma crítica, somente uma constatação.
A coisa é tão celular que o estranho, o que causaria uma comoção, seria a verdade aparecer.
Talvez no decorrer dessa leitura você tenha pensado em alguns ícones, vários nomes de pessoas que para você são verdadeiras. Vou lhe dizer uma coisa: resuma sua lista, mas resuma messssmo, é capaz de sobrar apenas um. Ou nem isso.

 

Nessa altura você já está achando um absurdo o que eu estou dizendo, né?
Uma arrogância!

 

Para mim é verdade o que eu disse, mas tudo pode não passar de mentira disfarçando-se de verdade.
Ela é tão poderosa que tem a capacidade de enganar pessoas inteligentíssimas, fazendo-as acreditar que estão sendo verdadeiras consigo mesmas e com os outros. E pior, isso acontece e dá muito certo. Multidões acreditam. É sério.
Nossa grande companheira honesta, que não nos deixa na mão em nenhum momento: a mentira. Vamos parar de ser hipócritas - é possível que doa menos. Nunca fomos e nunca seremos.
Quantos trabalhos, quantas terapias, quantas observações, quantas filosofias de bar e de sala você já não fez?
E a nossa companheira continua ao nosso lado.
Tudo bem, não precisa ficar com vergonha ou nervoso. É super natural discordar do que estou falando. Eu pararia de escrever agora e apertaria o botão “DEL”, se acontecesse o contrário. Mas, graças a você, a todo mundo, inclusive eu, tenho razões para continuar.
Alguns aí, vão apelar para santos. Ok, vale tudo. E eu pergunto: Você acha mesmo que os santos não mentem?
Ai, acho que blasfemei para alguns.
Desculpa. Eu esqueci que vocês acreditam que suas religiões dizem a verdade. Foi mal.
Vamos ser mais compreensivos com ela meu povo!
Ela nunca nos trai. Está sempre a nossa disposição. Não seja um ingrato com quem é tão dedicado a vossa pessoa.
Na próxima vez que se olhar no espelho, não finja que ela não está ali, fiel, prestativa só esperando o seu olhar de compaixão e aceitação.
Eu poderia dar grandes exemplos de coisas e pessoas do mundo, mas eu e você sabemos que não vou precisar disso.
Afinal, o papo aqui é mais individual, não precisamos ir tão longe. É só observar o fluxo de seus pensamentos agora. Isso, agora.
Hum, acho que te peguei! Sinto que não preciso ir mais além. Mas não tenho como não dizer uma coisa estranha: “Acho que existe alguma verdade em tudo isso”.

Bem, o papo está bom, mas eu e a minha fiel escudeira nos despedimos. Desejamos uma boa observação do fluxo de seus pensamentos neste momento. Agora. Mas, se for mais fácil, não tem nenhum problema chegar à conclusão que tudo isso é uma grande mentira. Vai por mim, isso não seria nada estranho.

sábado, 9 de novembro de 2013

Palavras e VIDAS COSTURADAS

Por Simone Huck

 

 

A casa estava sempre cheia de linhas coloridas, moldes, panos e agulhas. Cresci vendo minha mãe costurar tecidos. Minha mãe envelheceu me vendo costurar palavras. Com agulha ou caneta, estamos sempre costurando os panos da nossa espera. Repetindo promessas e sentimentos. Vamos caseando ilusões. Diante das nossas particulares máquinas de costura, seguimos fazendo a barra do nosso tempo. Pregando o zíper da paciência ou da ausência dela. Deixando os pontos surgirem das agulhas, em eterno zigue-zague. Das várias máquinas de costura que habitavam minha infância, me lembro bem dessa que fazia zigue-zague. Ela produzia vários tipos de pontos, bastava escolher o modo mais ou menos emaranhado. Sempre preferi o que mais parecia complicado. Eu já era um arabesco e nem sabia. Um eterno marinheiro perdido entre os diversos tipos de nós e mares e ondas e gaivotas e solidão. A vida é um mar costurado. As linhas entrelaçam-se emaranhadas. Rumo ao caos de algum resto de pano. Sempre gostei de restos de pano. Minha mãe sempre gostou do resto das minhas palavras. Estamos de mãos dadas. Brindemos o resto dos panos que ainda conseguimos ser. Pendurados no eterno varal da vida. Secamos numa manhã ensolarada.

 

Ela está doente. Até onde sei, não estou doente. Ela precisará fazer uma cirurgia no fim do mês. Peguei em suas mãos e a levei ao cirurgião. Agora sou eu quem precisa protegê-la entre meus braços inquietos. Conversei com ele e só depois que autorizei, ela resolveu se deixar abrir. Invertemos os papéis. Agora sou sua mãe e ela é a minha filha. Minha filha tem sessenta anos. A mãe da minha filha tem quase quarenta. Depois que garanti que tudo ficaria bem, que eu estaria na sala ao lado do centro cirúrgico, ela voltou a sorrir seu triste sorriso amarelado. O sorriso da minha mãe está precisando de óleo singer. A camisa da minha esperança está precisando de alguns botões. Ela será costurada: agulhas, tecidos, pele, vísceras, epiderme e minhas palavras. Minhas palavras não podem costurá-la com segurança. Ela é um tecido com medo. Sou uma palavra dúbia. Uma caneta que tenta garantir seu melhor zigue zague. Estamos em alto mar.

 

Duas horas da tarde. Entro no meu carro. Antes de costurar as ruas ligo o ar condicionado. Faz trinta e três graus em São Paulo. Já não sei mais o que é viver fora de um ar condicionado. Sou uma palavra quente. Não trabalhei. Tirei o dia para resolver as costuras da minha mãe. Acabei de juntar todos os papeis pré-operatórios. Agora ela se parece com uma tartaruga. Carrega no lugar do casco uma pasta repleta de exames e diagnósticos. Suas costas estão pesadas de papéis e palavras. Os médicos de hoje não sabem costurar o mesmo pano nem usar a mesma palavra para chegarem a uma mesma conclusão. Cada um escreve um laudo. Cada um costura um zigue-zague em eterna contradição. Ainda bem que sei decifrar arabescos.

 

A vida me deu o privilégio de ter alguns amigos médicos. Meu telefone toca, eles me garantem que ela ficará bem. Às vezes, meus amigos e eu, falamos a mesma linha sobre o mesmo pano. Ela ficará bem!! eles insistem. Semana que vem vou terminar de escrever meu livro. Semana que vem minha mãe será costurada. Entre agulhas e palavras a vida vai abrindo suas trincheiras.

 

Estou em casa. São quase dez horas da noite. Já passei minha roupa e antes de apagar a luz leio mais alguns trechos do livro. O telefone toca. Quem ousa me ligar nesse horário e na minha casa? Apenas cinco pessoas possuem o número da minha residência. Todos sabem que não gosto de ser incomodada quando estou na minha casa. Atendo equivocada e do outro lado minha filha de sessenta anos agradece por eu ter estado o dia todo cuidando dela. Confessou que só depois que me viu conversando com o cirurgião, entre palavras difíceis, foi que conseguiu costurar em paz. De palavras difíceis ela sabe que entendo. De panos e costuras, sei que ela entende. Ligou pra dizer que fez uma outra regata pra mim. Uma regata branca e com gola, do jeito que ela sabe que gosto e que só ela sabe costurar. Quando o telefone tocou eu escrevia essa crônica falando dela. Ela com as agulhas. Eu com as palavras. Nossa vida será um eterno zigue-zague. Estaremos costuradas no fim do emaranhado.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Flash Back

Por Luciana Nepomuceno…

the-end-old-movie

 

 

Lembrar é um pouco fazer-se de mágico. Quando começamos a puxar as memórias da manga, seguem-se - como lenços - coloridas, interligadas, aparentemente infindáveis. Os filmes fazem as vezes de palavras mágicas pra mim. Há pessoas que evocam o passado com músicas. Uma trilha sonora para o passar dos dias. Eu lembro e me lembro em imagens, diálogos, sequências. Eu lembro e me lembro em filmes. Os filmes que vi, que me marcaram, lembro deles e lembro imediatamente de como eu estava, com o que sonhava, quais minhas preocupações e alegrias.

 

Deixo o pensamento correr em marcha a ré e me vejo, menina. Os meus filmes eram, quase todos, na televisão. O cinema, em tela grande e pipoca, era pras férias. Eu, pequena: brincar na rua, me esconder do meu vizinho da frente que dizia que era meu namorado, fazer tarefas da escola. E querer ser meu pai. Meu pai é um baita cara. Quando eu era criança, queria ser igualzinha a ele. Hoje, muitos anos passados e experiências vividas, muitas pessoas e situações conhecidas, ainda quero exatamente a mesma coisa. Ser como ele é. Meu pai sabe amar e ser amado. Com ele aprendi a tolerância. O sorrir fácil. Foi espiando sua fala que fui aprendendo que ser gente é bem mais difícil do que parece: exige bondades. Foi observando seus dias que fui descobrindo: ser gente é bem mais fácil do que parece: demanda entregas. Meu pai é de coragens. E força. Meu pai é de vulnerabilidades. E generosidade. Construiu Brasília com as próprias mãos. Construiu um mundo de afeto pra nós com seus próprios sonhos. Com ele, aprendi a dizer, inclusive não, mesmo pra ele. Aprendi as cores vermelho e preto para a paixão. Aprendi o sofrer na canção. Aprendi o cavalgar para o destino. Deu-me ele: flamengo, Maysa e faroestes.

 

Então, a televisão, o sofá, os filmes. Eu gostava de ficar ali, pequena, vendo com os olhos imensamente bons e adultos do meu pai. Sabia que se eu aprendesse alguma coisa do que ele via, eu veria o mundo em sorrisos e generosidade. Porque ele é assim: bom. Enfim, no princípio era o Oeste e o Oeste era deus. Nem lembro quantos filmes desses eu vi: o cavaleiro solitário, os duelos, o saloon, as mulheres muito decotadas, as cartas, o cavaleiro novamente solitário. Eu imitava os pistoleiros e adorava fingir que bebia uísque ou sabia jogar pôquer. E, claro, dançava can-can. Eu era quem partia no cavalo, eu era quem ficava à janela. E eu era o próprio indomado espaço. Ver faroestes me libertava. E me aprisionava no anseio de ouvir aquelas trilhas sonoras hipnóticas, viciantes. Aquele assovio que escuto até hoje, música de fundo para as partidas, as decisões ou, simplesmente, um pôr-do-sol solitariamente contemplado.

 

Os faroestes possuem uma série de características que me comovem: honra e rude bondade. Um certo desconforto e o fato de nunca, nunca ser o bastante. O vasto horizonte e o risco sempre perto, sempre próximo. A aridez da vida e a felicidade temporária e transitória. Heróis vulneráveis e duros. A solidão. A violência sempre presente e sempre perturbadora. As desilusões, os grandes gestos, os inesquecíveis duelos. Era uma vez no Oeste, é sempre a mesma vez nos meus desejos. Penso que o faroeste é cinematográfico por essência, vocação e história - do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelos épicos, os demais gêneros têm nobres antecedentes no teatro e na literatura, mas o faroeste, fora tênues subprodutos, é vocacionado para as telas, talvez porque o cenário seja tão relevante para o gênero, só aquelas imagens daquele tempo e lugar poderiam suportar as dimensões dos faroestes.

 

O faroeste tem heróis. Mas heróis que não voam, não têm superpoderes, não são invulneráveis e, a bem da verdade, só se envolvem nestas coisas de bem comum por um incidente qualquer. São solitários os homens do Oeste. E me dói e me comove que assim o sejam. E não os queria outros.

 

Penso nos faroestes, nas lembranças que evocam e tenho cá pra mim que se devia ver mais destes filmes nos tempos que correm. Devíamos ver mais faroeste, aqueles, antigos, com mocinhos e bandidos. Porque se não se aprendesse por um lado, sempre se podia aprender pelo outro. Explico. Pode-se aprender pelo avesso. Pega um filme qualquer do Wayne. Era tudo bem esquemático, mesmo quando os personagens metiam-se a complexos. Nunca havia dúvida sobre quem era do bem e quem era do mal. Um mundo organizado e delimitado, porque do lado de cá da tela é uma bandalheira. Deixar o preto e o branco lá e, pra vida, reconhecer as nuances das cores, não lhes parece uma herança boa? Entender que há mais contradições, interesses e aspectos em uma questão do que o óbvio de dois extremos caricatos? Ou, claro, pode-se aprender pelo exemplo. A ordem das coisas nos faroestes eram simples. Claras. A construção da narrativa não deixava dúvida: o tal mocinho era bom – nós o reconhecíamos assim - porque ele fazia coisas boas e não o desajeitado e essencialista: ele fazia coisas boas porque era intrinsecamente bom. Nos faroestes não se julgam intenções. Ninguém quer saber se a pessoa está lutando contra os pistoleiros pra fazer de conta que é legal e tacar o beijo na mocinha. O que importa é que, lutando contra os pistoleiros, ele salva uma cidade inteira da opressão e do medo. É meio evidente que a mocinha queira beijá-lo. Um bocado de gente fica a querer. Eu mesma, já não mais tão criança, fui aprendendo a desejar nos meus homens algo que se passava com os homens que cavalgavam contra o sol naqueles enormes desfiladeiros. Os faroestes acompanharam minhas mudanças e fazem par com as lembranças que me acompanham.

 

Por serem tão próximos e queridos, não os coloco em ordem de preferência. Como escolher um único Wayne? O melhor Sergio Leone? O mais emblemático pistoleiro? O melhor duelo? Como dizer Ford ou Hawks? Cada filme tem sua força e deixou sua marca em minha caixinha de lembranças. Como Big Jack. Repleto de ação, humor e tiroteios hipnóticos, faz contraponto entre a pífia atuação oficial em frágeis automóveis dos agentes da lei e a arrogante e máscula campanha do herói que a 18 anos não via sua mulher. É um filme que me diverte e empolga sempre, e o que mais se pode querer do cinema? Ou todo o choro e o aprender a lidar com perdas e mudanças em Sete Homens e um destino: um filme em que eu ri. E chorei. E me zanguei. E ri de novo. E, um tantinho, me apaixonei pelo careca. Sempre me doía pensar que aqueles sete magníficos eram mais baratos do que comprar armas. Há cenas maravilhosas e diálogos impecáveis (os faroestes sempre têm poucas falas, mas os bons faroestes fazem disso um trunfo colocando sempre frases lendárias entre uma bala e outra). Tem uma trilha sonora envolvente. Há a preparação para a perda e a certeza da cruel continuidade da vida. Há uma pergunta que sempre se coloca como impossível pra mim: mais vale o que fica ou o que segue? E daí pulamos pro Gregory Peck e seu Duelo ao Sol. É estranhamente sexy para um faroeste. E, mais além, é trágico, com aquela beleza que só o impossível consegue emprestar a tudo o mais. É, para mim, um filme sobre escolhas. E com tão ricas cores e possibilidades que sempre que o revejo me espanta que se fizesse filmes assim e que não se faça mais. Para entrar na minha lista de boas lembranças, um bom título sempre ajuda. Foi Três homens em conflito, mas eu prefiro dizer: O Bom, O Mau e o Feio. Mas o filme tem mais, muito mais que um bom título. Tem a sequencia de abertura em que se apresenta, com requinte, cada um dos protagonistas (ou antagonistas, pra ser mais precisa). Nesse filme só falta diligências. E, claro, o Wayne. Mas tem tiroteio, pistoleiro, prostituta, cinismo, mocinhos barbados, cavalos, paisagens áridas...e uma história maravilhosa, rica, convincente, densa. Há longas sequências sem cortes que criam clima e aumentam a tensão até quase me fazer gritar. Há o contraste brilhante entre tomadas panorâmicas e closes de rostos fortes, duros, sujos, cínicos, impressionantes. O filme tem personagens, personagens complexos e muito bem interpretados. Já não falta Wayne nem No Tempo das Diligências nem no Rio Vermelho. Ambos tem Wayne e lançam as bases dos arquétipos que amo: o homem livre, forte, que deve impor-se pela força ao ambiente, seja natural ou social. As ambientações são impressionantes e o que o herói deve fazer se coloca inexorável. Rio Vermelho ganha por uma cabeça: a do Montgomery Clift. O homem é um só, eu aprendi, eu lembro. Aprendi a lidar com minha incompletude, a aceitar as minhas limitações. E as dos outros. A entender que o humano é sempre a desejar. A temer. O humano é verbo que precisa de objeto. A solidão das decisões, recordo em Onde começa o inferno. E mais: a covardia, a coragem, a escolha. Há ainda a violência dolorida e explícita (embora hoje quase terna) de Meu ódio será sua herança; o irrevogável tom trágico em O Último pôr-do-sol; o esquemático mas arrebatador Shane (que quase hereticamente insisto em chamar de os brutos também amam, menos porque me parece verdade e mais pelo tanto que eu gostaria que fosse); o amoroso, reverente e ainda assim crítico Era uma vez no Oeste ; o humor desesperado e a terna nostalgia de Butch Cassidy e Sundance Kid; o Wyatt Earp de Fonda/Ford em Paixão dos Fortes; a amargura e a complexidade de Jogos & Trapaças - Quando os Homens são Homens retratando a pressa da civilização e a perda da ingenuidade; o épico Da terra nascem os homens – e, outra vez, a sedução madura de Gregory Peck; o embate entre Fonda e Wayne em Sangue de Heróis; as intensas mulheres de Johny Guitar e O Diabo feito mulher; o talento de James Stewart em O Preço de um Homem.

 

Estes dias revi dois filmes que me lembraram o que amo ou, ainda, porque amo. Há dois homens, e eles são – concomitantemente – iguais e tão distintos quanto se pode – aparentemente - ser. Will Kane e Rooster Cogburn, respectivamente Gary Cooper e John Wayne em Matar ou Morrer e Bravura Indômita. Ambos já não são jovens, vemos em seus rostos o cansaço de uma vida difícil. Ambos têm uma tarefa a cumprir. Will Kane é um delegado prestes a passara bola que se depara com uma situação conflituosa ressurgida do passado, Rooster Cogburn é um agente federal que aceita o trabalho de procurar e capturar um fugitivo em território indígena. Wiil Kane é um homem ilibado, ético, determinado, impecável e reconhecido por todos como gente boa. Rooster Cogburn é um bêbado, um tanto violento, displicente e com moral frouxa.

 

Kane e Rooster são os homens que amo em cada homem que eu amo. Eu amo o andar angustiado de Kane e o gingado insolente de Rooster. Amo o abraço generoso de Kane e a cavalgada solitária de Rooster. Por baixo do tapa-olho, da estrela de latão, por baixo do silêncio eloquente ou da conversa bêbada, estão eles: homens que se sabem comprometidos com algo além deles, além de mim, além do óbvio. Algo que não se consegue definir com precisão mas se reconhece em situações extremas. Eu os amo no seu amor pela sua missão. Pela sua coragem e pelo conhecimento dos seus limites e da necessidade de ultrapassá-los.

 

Há um poeta inglês do séc. XVII, Lovelace, que termina sua poesia “To Lucasta, going to the Wars” deste jeito: “I could not love thee, Dear, so much,  Loved I not Honour more” - que eu entendo assim: não te amaria tanto, querida, não amasse mais a honra . É isso que amo nos homens que amo: essa convicção interna, esse núcleo seguro, essa ternura revestida em coragem. Essa independência. Então, eu penso, tão bom e tão útil uma sessão de faroeste. Pra ver Shane partir sozinho. Pra ver a porta que se fecha isolando Wayne em Rastros de Ódio. Pra saber dos que partem, solitários e sem raiz. Porque o custo de um esquema do bem absoluto é a absoluta solidão. O desencontro. Quem não viu o faroeste, não sabe que os que ficam, que tem amigos, famílias, filhos, risos e sonhos são os quase-certos, quase errados, os que podem ser heróicos, às vezes, mas são mesmo, quase sempre, é humanos.  Tão meus filmes que nem sei dizer algo que não seja: o coração é um bravio território. Inexplorado.