quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Borges, o outro – o mesmo!

 

Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi
teve origem em minha emoção
” 

— Jorge Luis Borges—


 

borges

 

 

Enquanto a chuva caí lá fora leio Borges —  esse outro, o mesmo. Esse homem, o poeta.

O livro “poesia” ocupa os olhos, a pele, a alma. O sentir. Vai me desabrigando —  o cenário esbranquiçado da Paulicéia de Mário vai ficando distante — de repente, sou ocupada por outros elementos: a Praça do Retiro, figura presente nos versos do poeta que passava por ali em suas caminhadas a caminho do Café Tortoni que ainda hoje tem diversas citações do poeta e sua mesa está lá, em compasso de espera – como se o homem/poeta fosse aparecer a qualquer momento.

A Buenos Aires de Borges, contudo, é outra - como ele mesmo faz questão de dizer em seus versos. Talvez seja uma cidade inventada pelos olhos do homem que com o passar dos dias se recusou a ver o que não era de seu agrado.

 

Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.
Recordo o ruído de ferros do portão gradeado.
Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia.(...)
Recordo o tempo generoso, as pessoas que chegavam sem
avisar.(...)
Recordo o que vi e o que me contaram meus pais. (...)
Recordo as carroças do interior no pó do Once.
Recordo o Almacén de La Figura na rua de Tucumán.
Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.
Lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.

 

Com 15 anos, Borges foi morar na Europa - onde ficou por sete anos, tempo suficiente, para, ao retornar a sua cidade natal - encontrar uma nova Buenos Aires. A cidade havia crescido rapidamente: as velhas casas substituídas por prédios, as avenidas aumentaram. Surgiram bairros populares formando-se assim, a metrópole moderna que não tem espaço na poesia de Borges que exibe ao nosso olhar uma Buenos Aires de alta emoção estética vinda dos bairros humildes. É tudo muito escuro e denso. Nostálgico e metafísico. Fica fácil perceber que Buenos Aires para ele, mais que uma cidade é um país inteiro.

 

"Buenos Aires sempre foi uma cidade múltipla, feita de retalhos de povos transformados em subúrbios - daí cosmopolita” – explicou Borges.

 

Quando Borges era menino, Palermo, bairro onde viveu era um lugar calmo, silencioso e arborizado. Ficava no limite da cidade e o campo. Era um subúrbio distante e perigoso à noite, ou segundo o poeta - "era um sórdido arrabalde norte da cidade". Palermo foi imortalizada em muitos contos e poemas do autor.

Sua obra desenhou uma espécie de cidade imaginária, erguida a partir da Buenos Aires vivida e lembrada. Para sabê-la é preciso mergulhar nas linhas do homem/poeta que nos apresenta pequenos pedaços da cidade que ele inventou. Em alguns momentos tudo parece uma pintura a nos causar sensações e percepções acerca de um cotidiano que não nos pertence e assim está lá a nos tomar de assalto.

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu na Rua Tucumã, bem ao centro de Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899, na casa de seu avô paterno. Porém, foi em Palermo, casa onde morava com os pais, que viveu sua infância e ali com apenas 6 anos decidiu que queria ser escritor. Menino com grandes óculos passou maior parte do seu tempo na biblioteca do pai, como ele mesmo afirma em um de seus muitos ensaios: “Se tivesse de indicar o evento principal de minha vida, diria que é a biblioteca de meu pai. Na realidade creio nunca ter saído dessa biblioteca”.

Aos oito anos rabiscou suas linhas primeiras – escrevendo o conto “la visera fatal”. Oitenta anos mais tarde. Cego. Velho. Com o peso da idade sob os ombros. Esgotado – seguia ditando palavras para a mãe, à secretaria e depois para Maria Kodama com quem se casou nos últimos instantes de vida.

Borges deixou de ser um leitor em 1955 – mas preservou o olhar estreito. Nada do que havia conquistado se perdeu. As palavras seguiam em sua mente. Sua genialidade permaneceu intacta até o último segundo “quando algo te acaba, precisas saber como iniciar” – e ele soube. Voltando aos estudos – reinventando a si mesmo. O homem alcançou um novo estilo.

Havia muito de outros poetas em sua escrita. Havia muito de si – o outro, o mesmo. Borges acrescentou elementos novos a uma escrita cada vez melhor. Temas simples como o subúrbio portenho ou o tango ganharam perspectivas inéditas através da alma que parecia preservar como herança tudo que o homem havia visto durante o tempo em que seus olhos colhiam imagens. O homem morreu sem receber muitos agrados. Sem ser devidamente aclamado. Morreu em 1986 sem que o soubessem de fato modernista ou poeta de vanguarda.

Morreu dizendo ao mundo que era um homem que pouco tinha lido e quando o fez, leu sempre os mesmos livros. Morreu dizendo ter escrito apenas cinco ou talvez seis livros. Dante, Shakespeare e Vírgilio – homens dotados de boas palavras.

A consagração do poeta veio em 1935 – mas ele não esperava pelo sucesso. Queria a escuridão. O silêncio – a quietude. A sua tão aclamada solidão – o único deus para quem rezou seguidas vezes ao longo de toda a sua vida.

Borges esperava morrer no anonimato. Sem que dessem por ele. Não foi assim… O ápice veio com Aleph que para o poeta era uma espécie de bibliografia do homem que chegou a anunciar a data de seu fim. O homem cometeria suicídio anunciou uma carta publicada num jornal argentino. Mas a data passou e o homem lá permaneceu, segundo ele mesmo disse “por covardia”. Não foi além, preferiu esperar pelo fim como fazemos todos.

O poeta seguiu com suas linhas – sempre perfeitas, concisas e mágicas – deixando o homem liberto da velhice e até mesmo da cegueira.

 

 

“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu.
Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó”
— Jorge Luis Borges —

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