quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Flash Back

Por Luciana Nepomuceno…

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Lembrar é um pouco fazer-se de mágico. Quando começamos a puxar as memórias da manga, seguem-se - como lenços - coloridas, interligadas, aparentemente infindáveis. Os filmes fazem as vezes de palavras mágicas pra mim. Há pessoas que evocam o passado com músicas. Uma trilha sonora para o passar dos dias. Eu lembro e me lembro em imagens, diálogos, sequências. Eu lembro e me lembro em filmes. Os filmes que vi, que me marcaram, lembro deles e lembro imediatamente de como eu estava, com o que sonhava, quais minhas preocupações e alegrias.

 

Deixo o pensamento correr em marcha a ré e me vejo, menina. Os meus filmes eram, quase todos, na televisão. O cinema, em tela grande e pipoca, era pras férias. Eu, pequena: brincar na rua, me esconder do meu vizinho da frente que dizia que era meu namorado, fazer tarefas da escola. E querer ser meu pai. Meu pai é um baita cara. Quando eu era criança, queria ser igualzinha a ele. Hoje, muitos anos passados e experiências vividas, muitas pessoas e situações conhecidas, ainda quero exatamente a mesma coisa. Ser como ele é. Meu pai sabe amar e ser amado. Com ele aprendi a tolerância. O sorrir fácil. Foi espiando sua fala que fui aprendendo que ser gente é bem mais difícil do que parece: exige bondades. Foi observando seus dias que fui descobrindo: ser gente é bem mais fácil do que parece: demanda entregas. Meu pai é de coragens. E força. Meu pai é de vulnerabilidades. E generosidade. Construiu Brasília com as próprias mãos. Construiu um mundo de afeto pra nós com seus próprios sonhos. Com ele, aprendi a dizer, inclusive não, mesmo pra ele. Aprendi as cores vermelho e preto para a paixão. Aprendi o sofrer na canção. Aprendi o cavalgar para o destino. Deu-me ele: flamengo, Maysa e faroestes.

 

Então, a televisão, o sofá, os filmes. Eu gostava de ficar ali, pequena, vendo com os olhos imensamente bons e adultos do meu pai. Sabia que se eu aprendesse alguma coisa do que ele via, eu veria o mundo em sorrisos e generosidade. Porque ele é assim: bom. Enfim, no princípio era o Oeste e o Oeste era deus. Nem lembro quantos filmes desses eu vi: o cavaleiro solitário, os duelos, o saloon, as mulheres muito decotadas, as cartas, o cavaleiro novamente solitário. Eu imitava os pistoleiros e adorava fingir que bebia uísque ou sabia jogar pôquer. E, claro, dançava can-can. Eu era quem partia no cavalo, eu era quem ficava à janela. E eu era o próprio indomado espaço. Ver faroestes me libertava. E me aprisionava no anseio de ouvir aquelas trilhas sonoras hipnóticas, viciantes. Aquele assovio que escuto até hoje, música de fundo para as partidas, as decisões ou, simplesmente, um pôr-do-sol solitariamente contemplado.

 

Os faroestes possuem uma série de características que me comovem: honra e rude bondade. Um certo desconforto e o fato de nunca, nunca ser o bastante. O vasto horizonte e o risco sempre perto, sempre próximo. A aridez da vida e a felicidade temporária e transitória. Heróis vulneráveis e duros. A solidão. A violência sempre presente e sempre perturbadora. As desilusões, os grandes gestos, os inesquecíveis duelos. Era uma vez no Oeste, é sempre a mesma vez nos meus desejos. Penso que o faroeste é cinematográfico por essência, vocação e história - do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelos épicos, os demais gêneros têm nobres antecedentes no teatro e na literatura, mas o faroeste, fora tênues subprodutos, é vocacionado para as telas, talvez porque o cenário seja tão relevante para o gênero, só aquelas imagens daquele tempo e lugar poderiam suportar as dimensões dos faroestes.

 

O faroeste tem heróis. Mas heróis que não voam, não têm superpoderes, não são invulneráveis e, a bem da verdade, só se envolvem nestas coisas de bem comum por um incidente qualquer. São solitários os homens do Oeste. E me dói e me comove que assim o sejam. E não os queria outros.

 

Penso nos faroestes, nas lembranças que evocam e tenho cá pra mim que se devia ver mais destes filmes nos tempos que correm. Devíamos ver mais faroeste, aqueles, antigos, com mocinhos e bandidos. Porque se não se aprendesse por um lado, sempre se podia aprender pelo outro. Explico. Pode-se aprender pelo avesso. Pega um filme qualquer do Wayne. Era tudo bem esquemático, mesmo quando os personagens metiam-se a complexos. Nunca havia dúvida sobre quem era do bem e quem era do mal. Um mundo organizado e delimitado, porque do lado de cá da tela é uma bandalheira. Deixar o preto e o branco lá e, pra vida, reconhecer as nuances das cores, não lhes parece uma herança boa? Entender que há mais contradições, interesses e aspectos em uma questão do que o óbvio de dois extremos caricatos? Ou, claro, pode-se aprender pelo exemplo. A ordem das coisas nos faroestes eram simples. Claras. A construção da narrativa não deixava dúvida: o tal mocinho era bom – nós o reconhecíamos assim - porque ele fazia coisas boas e não o desajeitado e essencialista: ele fazia coisas boas porque era intrinsecamente bom. Nos faroestes não se julgam intenções. Ninguém quer saber se a pessoa está lutando contra os pistoleiros pra fazer de conta que é legal e tacar o beijo na mocinha. O que importa é que, lutando contra os pistoleiros, ele salva uma cidade inteira da opressão e do medo. É meio evidente que a mocinha queira beijá-lo. Um bocado de gente fica a querer. Eu mesma, já não mais tão criança, fui aprendendo a desejar nos meus homens algo que se passava com os homens que cavalgavam contra o sol naqueles enormes desfiladeiros. Os faroestes acompanharam minhas mudanças e fazem par com as lembranças que me acompanham.

 

Por serem tão próximos e queridos, não os coloco em ordem de preferência. Como escolher um único Wayne? O melhor Sergio Leone? O mais emblemático pistoleiro? O melhor duelo? Como dizer Ford ou Hawks? Cada filme tem sua força e deixou sua marca em minha caixinha de lembranças. Como Big Jack. Repleto de ação, humor e tiroteios hipnóticos, faz contraponto entre a pífia atuação oficial em frágeis automóveis dos agentes da lei e a arrogante e máscula campanha do herói que a 18 anos não via sua mulher. É um filme que me diverte e empolga sempre, e o que mais se pode querer do cinema? Ou todo o choro e o aprender a lidar com perdas e mudanças em Sete Homens e um destino: um filme em que eu ri. E chorei. E me zanguei. E ri de novo. E, um tantinho, me apaixonei pelo careca. Sempre me doía pensar que aqueles sete magníficos eram mais baratos do que comprar armas. Há cenas maravilhosas e diálogos impecáveis (os faroestes sempre têm poucas falas, mas os bons faroestes fazem disso um trunfo colocando sempre frases lendárias entre uma bala e outra). Tem uma trilha sonora envolvente. Há a preparação para a perda e a certeza da cruel continuidade da vida. Há uma pergunta que sempre se coloca como impossível pra mim: mais vale o que fica ou o que segue? E daí pulamos pro Gregory Peck e seu Duelo ao Sol. É estranhamente sexy para um faroeste. E, mais além, é trágico, com aquela beleza que só o impossível consegue emprestar a tudo o mais. É, para mim, um filme sobre escolhas. E com tão ricas cores e possibilidades que sempre que o revejo me espanta que se fizesse filmes assim e que não se faça mais. Para entrar na minha lista de boas lembranças, um bom título sempre ajuda. Foi Três homens em conflito, mas eu prefiro dizer: O Bom, O Mau e o Feio. Mas o filme tem mais, muito mais que um bom título. Tem a sequencia de abertura em que se apresenta, com requinte, cada um dos protagonistas (ou antagonistas, pra ser mais precisa). Nesse filme só falta diligências. E, claro, o Wayne. Mas tem tiroteio, pistoleiro, prostituta, cinismo, mocinhos barbados, cavalos, paisagens áridas...e uma história maravilhosa, rica, convincente, densa. Há longas sequências sem cortes que criam clima e aumentam a tensão até quase me fazer gritar. Há o contraste brilhante entre tomadas panorâmicas e closes de rostos fortes, duros, sujos, cínicos, impressionantes. O filme tem personagens, personagens complexos e muito bem interpretados. Já não falta Wayne nem No Tempo das Diligências nem no Rio Vermelho. Ambos tem Wayne e lançam as bases dos arquétipos que amo: o homem livre, forte, que deve impor-se pela força ao ambiente, seja natural ou social. As ambientações são impressionantes e o que o herói deve fazer se coloca inexorável. Rio Vermelho ganha por uma cabeça: a do Montgomery Clift. O homem é um só, eu aprendi, eu lembro. Aprendi a lidar com minha incompletude, a aceitar as minhas limitações. E as dos outros. A entender que o humano é sempre a desejar. A temer. O humano é verbo que precisa de objeto. A solidão das decisões, recordo em Onde começa o inferno. E mais: a covardia, a coragem, a escolha. Há ainda a violência dolorida e explícita (embora hoje quase terna) de Meu ódio será sua herança; o irrevogável tom trágico em O Último pôr-do-sol; o esquemático mas arrebatador Shane (que quase hereticamente insisto em chamar de os brutos também amam, menos porque me parece verdade e mais pelo tanto que eu gostaria que fosse); o amoroso, reverente e ainda assim crítico Era uma vez no Oeste ; o humor desesperado e a terna nostalgia de Butch Cassidy e Sundance Kid; o Wyatt Earp de Fonda/Ford em Paixão dos Fortes; a amargura e a complexidade de Jogos & Trapaças - Quando os Homens são Homens retratando a pressa da civilização e a perda da ingenuidade; o épico Da terra nascem os homens – e, outra vez, a sedução madura de Gregory Peck; o embate entre Fonda e Wayne em Sangue de Heróis; as intensas mulheres de Johny Guitar e O Diabo feito mulher; o talento de James Stewart em O Preço de um Homem.

 

Estes dias revi dois filmes que me lembraram o que amo ou, ainda, porque amo. Há dois homens, e eles são – concomitantemente – iguais e tão distintos quanto se pode – aparentemente - ser. Will Kane e Rooster Cogburn, respectivamente Gary Cooper e John Wayne em Matar ou Morrer e Bravura Indômita. Ambos já não são jovens, vemos em seus rostos o cansaço de uma vida difícil. Ambos têm uma tarefa a cumprir. Will Kane é um delegado prestes a passara bola que se depara com uma situação conflituosa ressurgida do passado, Rooster Cogburn é um agente federal que aceita o trabalho de procurar e capturar um fugitivo em território indígena. Wiil Kane é um homem ilibado, ético, determinado, impecável e reconhecido por todos como gente boa. Rooster Cogburn é um bêbado, um tanto violento, displicente e com moral frouxa.

 

Kane e Rooster são os homens que amo em cada homem que eu amo. Eu amo o andar angustiado de Kane e o gingado insolente de Rooster. Amo o abraço generoso de Kane e a cavalgada solitária de Rooster. Por baixo do tapa-olho, da estrela de latão, por baixo do silêncio eloquente ou da conversa bêbada, estão eles: homens que se sabem comprometidos com algo além deles, além de mim, além do óbvio. Algo que não se consegue definir com precisão mas se reconhece em situações extremas. Eu os amo no seu amor pela sua missão. Pela sua coragem e pelo conhecimento dos seus limites e da necessidade de ultrapassá-los.

 

Há um poeta inglês do séc. XVII, Lovelace, que termina sua poesia “To Lucasta, going to the Wars” deste jeito: “I could not love thee, Dear, so much,  Loved I not Honour more” - que eu entendo assim: não te amaria tanto, querida, não amasse mais a honra . É isso que amo nos homens que amo: essa convicção interna, esse núcleo seguro, essa ternura revestida em coragem. Essa independência. Então, eu penso, tão bom e tão útil uma sessão de faroeste. Pra ver Shane partir sozinho. Pra ver a porta que se fecha isolando Wayne em Rastros de Ódio. Pra saber dos que partem, solitários e sem raiz. Porque o custo de um esquema do bem absoluto é a absoluta solidão. O desencontro. Quem não viu o faroeste, não sabe que os que ficam, que tem amigos, famílias, filhos, risos e sonhos são os quase-certos, quase errados, os que podem ser heróicos, às vezes, mas são mesmo, quase sempre, é humanos.  Tão meus filmes que nem sei dizer algo que não seja: o coração é um bravio território. Inexplorado. 

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