sábado, 9 de novembro de 2013

Palavras e VIDAS COSTURADAS

Por Simone Huck

 

 

A casa estava sempre cheia de linhas coloridas, moldes, panos e agulhas. Cresci vendo minha mãe costurar tecidos. Minha mãe envelheceu me vendo costurar palavras. Com agulha ou caneta, estamos sempre costurando os panos da nossa espera. Repetindo promessas e sentimentos. Vamos caseando ilusões. Diante das nossas particulares máquinas de costura, seguimos fazendo a barra do nosso tempo. Pregando o zíper da paciência ou da ausência dela. Deixando os pontos surgirem das agulhas, em eterno zigue-zague. Das várias máquinas de costura que habitavam minha infância, me lembro bem dessa que fazia zigue-zague. Ela produzia vários tipos de pontos, bastava escolher o modo mais ou menos emaranhado. Sempre preferi o que mais parecia complicado. Eu já era um arabesco e nem sabia. Um eterno marinheiro perdido entre os diversos tipos de nós e mares e ondas e gaivotas e solidão. A vida é um mar costurado. As linhas entrelaçam-se emaranhadas. Rumo ao caos de algum resto de pano. Sempre gostei de restos de pano. Minha mãe sempre gostou do resto das minhas palavras. Estamos de mãos dadas. Brindemos o resto dos panos que ainda conseguimos ser. Pendurados no eterno varal da vida. Secamos numa manhã ensolarada.

 

Ela está doente. Até onde sei, não estou doente. Ela precisará fazer uma cirurgia no fim do mês. Peguei em suas mãos e a levei ao cirurgião. Agora sou eu quem precisa protegê-la entre meus braços inquietos. Conversei com ele e só depois que autorizei, ela resolveu se deixar abrir. Invertemos os papéis. Agora sou sua mãe e ela é a minha filha. Minha filha tem sessenta anos. A mãe da minha filha tem quase quarenta. Depois que garanti que tudo ficaria bem, que eu estaria na sala ao lado do centro cirúrgico, ela voltou a sorrir seu triste sorriso amarelado. O sorriso da minha mãe está precisando de óleo singer. A camisa da minha esperança está precisando de alguns botões. Ela será costurada: agulhas, tecidos, pele, vísceras, epiderme e minhas palavras. Minhas palavras não podem costurá-la com segurança. Ela é um tecido com medo. Sou uma palavra dúbia. Uma caneta que tenta garantir seu melhor zigue zague. Estamos em alto mar.

 

Duas horas da tarde. Entro no meu carro. Antes de costurar as ruas ligo o ar condicionado. Faz trinta e três graus em São Paulo. Já não sei mais o que é viver fora de um ar condicionado. Sou uma palavra quente. Não trabalhei. Tirei o dia para resolver as costuras da minha mãe. Acabei de juntar todos os papeis pré-operatórios. Agora ela se parece com uma tartaruga. Carrega no lugar do casco uma pasta repleta de exames e diagnósticos. Suas costas estão pesadas de papéis e palavras. Os médicos de hoje não sabem costurar o mesmo pano nem usar a mesma palavra para chegarem a uma mesma conclusão. Cada um escreve um laudo. Cada um costura um zigue-zague em eterna contradição. Ainda bem que sei decifrar arabescos.

 

A vida me deu o privilégio de ter alguns amigos médicos. Meu telefone toca, eles me garantem que ela ficará bem. Às vezes, meus amigos e eu, falamos a mesma linha sobre o mesmo pano. Ela ficará bem!! eles insistem. Semana que vem vou terminar de escrever meu livro. Semana que vem minha mãe será costurada. Entre agulhas e palavras a vida vai abrindo suas trincheiras.

 

Estou em casa. São quase dez horas da noite. Já passei minha roupa e antes de apagar a luz leio mais alguns trechos do livro. O telefone toca. Quem ousa me ligar nesse horário e na minha casa? Apenas cinco pessoas possuem o número da minha residência. Todos sabem que não gosto de ser incomodada quando estou na minha casa. Atendo equivocada e do outro lado minha filha de sessenta anos agradece por eu ter estado o dia todo cuidando dela. Confessou que só depois que me viu conversando com o cirurgião, entre palavras difíceis, foi que conseguiu costurar em paz. De palavras difíceis ela sabe que entendo. De panos e costuras, sei que ela entende. Ligou pra dizer que fez uma outra regata pra mim. Uma regata branca e com gola, do jeito que ela sabe que gosto e que só ela sabe costurar. Quando o telefone tocou eu escrevia essa crônica falando dela. Ela com as agulhas. Eu com as palavras. Nossa vida será um eterno zigue-zague. Estaremos costuradas no fim do emaranhado.

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