quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

E se Eva ofereceu a maçã,

Por Veronice Ayala

 

 

…tenho 59 anos. Sou aposentada do Tribunal de Justiça. Moro em Greenwich/Connecticut. Tenho poesias, contos e crônicas. e 2 livros em andamento há pelo menos 4/5 anos. Uau! Sou viúva desde que tinha 26 anos de idade e alguns amores mal sucedidos no meu histórico pessoal. Duas filhas e um neto adolescente. Sou feliz!

 

 

O mínimo que posso dizer é que se a eva ofereceu a maçã é porque pensa que eu posso aceitar. A eva me tem nas mãos. Conhece o meu coração e os sentimentos que estão dentro dele. Conhece bem o que sinto, porque sinto, e a que horas sinto. E mais, conhece todos os meus motivos. As minhas causas.Para sentir esses sentimentos todos. Daí então conhece meu presente. Está de olho em tudo ao meu redor. E se o presente é o resultado do passado, também conhece meu passado. E com base nisso pode imaginar por quais caminhos o meu futuro vai andar. O que tenho nas mãos? A eva sabe, a eva vê, a eva advinha. Vê minhas roupas penduradas no cabide. A mala guardada atrás da porta. A eva vê as minhas rugas. Sabe onde estão os meus potes de disfarce. A eva leu os meus livros que nunca foram escritos. Porque ela sabe o que penso. Ela não lê pensamentos, mas, eu sempre falo alto comigo mesma. Eva tem bons ouvidos. É jovem. Esperta. Inteligente e sagaz. O que não escuta advinha pelos gestos, fungos, suspiros e devaneios de loucura. Vê quando tomo gotinhas homeopáticas. Pequenas doses de alívio nos momentos de crise.

 

Ainda mais do que tudo isso, a Eva sabe que gosto de tudo organizado e limpo. Não gosto do feio. Só do que é belo. Tenho pavor de doenças. Gatos arrepiados. Trovões noturnos. Sapato virado. Tapete enrolado sem uso. Pia cheia de louças. Comida requentada. Gente que fala palavrão. Porque palavrão é feio. Palavrão é construído com coisas que devem ficar escondidas. Nem gosto de pensar nelas. Eva me conhece e sabe que de repente posso aceitar esse convite que ela me faz. E por isso me faz. Mas eu me previno desse deslize com minhas orações matinais. E também com as noturnas.Com meu pensamento positivo que desconsidera as sextas-feiras treze, a previsão astrológica e a numerologia. Mesmo asssim, nunca se sabe o que ela pode me soprar nos ouvidos enquanto estou dormindo. Tenho segredos que eva não sabe mas desconfia. Por isso sempre joga verde para colher maduro. Está sempre me espreitando para descobrir como pode me convencer.

 

Se eva me ofereceu a maçã é porque sabe que posso aceitar de primeira. Ou então pouco tempo depois. Posso congelar a maçã no freezer da minha geladeira. Lá onde tenho coisas que vou colocar no lixo sem nunca experimentar. Posso também nunca aceitar. Mas a eva sabe que eu posso aceitar. Por isso me oferece a maçã. Vermelha doce e madura. Para eu dar aquela mordida e ouvir o crec. Depois olhar para e ver a marca dos dentes. E se não for doce e gostosa como parecia? Não vou ter tempo de pensar muito porque a maçã logo escurece. Oxida com o ar. Com a saliva. Com o que eu não sei. Mas sei que a fruta tão atraente perde a beleza tão logo recebe a mordida. O desejo morre tão depressa. O prazer do crec foi bom mas se foi tão rápido.

Fica a dúvida. Eu me benzo. A eva cruza os dedos.

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