terça-feira, 7 de outubro de 2014

O mundo de Alice

“Mas de nada serve agora fingir que
sou duas pessoas!Porque tudo o que sobrou de mim mesma é
pouco até para ser uma só pessoa respeitável!”

Lewis Carroll

 

Plural - o mundo de alice


 

 

 

 

Carta ao Leitor
Mariel Fernandes

 

No mundo de Alice

 

Carta à Alice
Mariana Gouveia

 

País das Maravilhas
Ingrid Caldas

 

Ilusionismo Moderno
Inge Lobato

 

Quando o imaginário emoldura o real

Tatiana Kielberman

 

 

Leia a versão abaixo:

 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Alice | QUANDO O IMAGINÁRIO EMOLDURA O REAL

Por Tatiana Kielberman

 

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então”...

Lewis Carroll

 

 

 

Escrever é um compromisso que assumo comigo há tempos, mas sempre pensei palavras na tela ou na folha, nunca na própria pele, feito tatuagem... Talvez seja por isso que, vez ou outra, eu fique por horas inteiras observando o papel em branco, a imaginar as letras e seu percurso...

 

Foi como na noite de ontem, em que permaneci olhando para dentro, tendo como horizonte o lado de fora — e me perguntei, em meio aos desconfortos que embalo... Onde fica o mundo de Alice? Onde foram parar as fantasias que circundam meu universo e toda aquela leveza que — um dia qualquer — se fez tão próxima a mim?

 

A personagem a que me refiro acima, “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, sempre simbolizou em meu imaginário uma espécie de possibilidade encantadora... Um caminho para desvendar aquilo que me gerava tamanha recusa em um primeiro momento, pelo fato de o mundo lá fora limitar — quase sempre — o meu espaço a premissas específicas e poucas.

 

Ler Alice em tempos outros trazia compreensão ao meu coração de garota, ainda que superficialmente, sobre por que eu teimava em impor barreiras e empecilhos mil aos meus voos, sendo que havia tanto a gritar... tanto por fazer... tanto para ser!

 

A impressão que eu tinha era de que Alice, apesar do medo que sentia, não se furtava a percorrer seus infinitos labirintos. Ela queria, de qualquer modo, saber o que havia do outro lado. Arriscou-se a tecer diálogos com seres que lhe transmitiram estranheza em um primeiro momento, mas que depois se tornaram seus grandes parceiros de desafios.

 

Guiando minha perspectiva um pouco para trás, sinto que transitei a vida toda seguindo os passos de Alice. Quis ter sua ousadia. Sua audácia. Um jeito desajeitado, uma confiança desconfiada de si mesma, do outro e do ambiente que a cerca, mas que não abdica nunca de ouvir e atender a própria intuição.

 

Hoje, olho atenta para Alice e sinto que ela também me observa de volta. Espera um pouco mais do meu pulsar. Quer que eu desabroche as lições que, na teoria, pareço ter tomado para mim ao observá-la... Em muitos momentos, sinto o desejo genuíno de tirar as histórias do papel e finalmente vivenciá-las. Desprender o sentimento da ilusão e torná-lo palpável...

 

... mas, será que há mesmo uma fiel separação entre imaginário e realidade? E onde fica, afinal, o meu tão sonhado mundo de Alice em meio a esta trama?

 

Eis que, ao fechar os olhos por um segundo, descubro-me inteira como nunca antes me senti. Respiro profundamente e sinto o real e o ilusório juntos, caminhando de mãos dadas em meu íntimo, como se deles dependesse toda a estrutura do meu libertar... É na essência que vive Alice. E foi lá, também, que eu me permiti começar a viver...

domingo, 28 de setembro de 2014

Alice | Ilusionismo Moderno

Por Inge Lobato

 

alice-no-pais-das-maravilhas-ii-194354-1

 

 

Olhe de perto, bem mais de perto. Você vê?
Os mágicos saíram dos palcos e agora estão ao nosso redor... vendendo ilusões cada vez mais belas. Escolha uma carta – apenas uma – pode ser qualquer uma...
Não me diga qual carta escolheu. Eu posso adivinhá-la.
Você escolheu a carta mágica que lhe dará dinheiro e sucesso instantâneos. Escolheu o belíssimo carro em que posa belo e também um estilo de vida badalado no Instagram.
Acertei?
De perto, um pouco mais de perto...
Como adivinhei? Simples. É mágica!
Eu posso lhe garantir que tudo isso é possível, meu caro, e que todos nós mágicos somos assim em tempo integral... e sua vida será assim também se você revender o revolucionário “kit de ilusionismo moderno instantâneo”, onde tudo parece mágico e real. O que ninguém vai lhe dizer é que tudo não passa de uma máscara para impressionar pessoas como você.
Perto, bem mais perto. Vamos, não seja tímido, escolha outra carta...
Vou adivinhar novamente: você deseja impressionar tanto as pessoas que a única coisa que enxerga na vida são as pessoas que estão o tempo todo tentando te impressionar. É um jogo de cartas marcadas... sorria, você está sendo filmado!
Você ainda não percebeu o truque? Chegue mais perto, bem mais perto, onde seus olhos não possam mais desviar sua atenção... porque é preciso está perto da ilusão, e longe da realidade. A verdade não vale nada. A mentira vende milhões.
Deixe a conta para amanhã, ignore as parcelas caras e ainda não pagas da vida inventada que você sonha em ter. Fotografe, escreva o que não tem, e passe pela porta.

Perto, bem mais perto...

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Plural | O mundo de Alice

Por Mariel Fernandes

 

plural revista

 

Aos covardes do amor, cem anos de solidão. Que vivam nas sombras das suas desculpas razoáveis, cheias de bom senso e justificativas plausíveis. Os conspiradores sabem por quem os sinos dobram e os abandonam, transformando a si mesmos em fantasmas da terra do nunca. Não se aventuram, por isso não se perdem. Evitam desafios marítimos, por isso não naufragam. Se acreditam à salvo das tempestades, por isso transformam a vida em sonhos de uma noite de verão.

Aos covardes do amor, uma certeza: vivem em guerra e paz com eles mesmos, são um estado de alma e escolhem ver a vida no cartão postal por acreditar que podem abrir mão da paisagem. Crendo nisso, se condenam a uma existência menor e seguem sorrindo em direção à outras vidas secas.

Aos covardes do amor a consciência de que crime e castigo andam juntos, mas não como pensam. Crime é abrir mão. Castigo é apenas sentir em rotina sonolenta o tempo e o vento passando.

Aos covardes do amor, mil e uma noites recheadas do sempre, esse que elege eterno tudo aquilo que não dura, se transformando no oposto da chama. Aos covardes do amor, a minha alegria perene. Sou o náufrago. Vivo em cidades invisíveis.

Acho paris uma festa. Existo súdito de um pequeno príncipe. Escrevi cartas ao amor distante. Embarquei num bonde chamado desejo. Enfrentei mil léguas submarinas, acredito em histórias extraordinárias e num admirável mundo novo. Sobretudo não troco meu naufrágio real pela irreal que separa o velho e o mar.

No fundo, prefiro ser um estrangeiro num mundo simpático aos miseráveis.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Alice | No mundo de Alice

Por Lunna Guedes

 

Nietzsche, considera que para alguém ser artista, também é necessário esquecer e, ignorar por que, para além do esquecimento é possível experimentar uma segunda inocência, que torna o homem mais infantil e, ao mesmo tempo, mais refinado.

 

Alice

 

A realidade não é uma mesma coisa, embora muitos pensem que sim... Jacques Lacan, em seus estudos, apontou que o psíquico do ser humano estrutura-se em três dimensões, que se articulam e se entrelaçam, assim definidas por ele como sendo: o Real, o Simbólico e o Imaginário.

 

O real, segundo sua formulação, não é a mesma coisa que a realidade, pois o real — diferentemente da realidade — não precisa de outros campos para existir.

 

O campo do real escapa à simbolização, portanto, ao contrário da realidade, existe por si mesmo, de maneira inerente ao nosso desejo e ao nosso poder. Querendo ou não, o sol se põe… a noite acontece, assim como o dia seguinte e, tudo tem o seu devido lugar no mundo real das coisas; desse modo, o real escapa à subjetividade humana.

 

A realidade, contudo, depende do humano e de todos os símbolos que este coleciona ao longo da primeira infância. Por isso, não é única — mas, na verdade, múltipla — e há muitos autores que a dizem infinita, justamente por ser subjetiva à nossa vontade. Podemos moldá-la, transformá-la... em alguns casos, podemos até mesmo editá-la.

 

Jacques Lacan afirmou que a realidade depende de como o indivíduo é concebido para o mundo quando ocorre — na primeira infância — a definição de seu psíquico, nesse instante, o individuo é influenciado pelo meio em que vive e pelo conjunto de símbolos que esse mundo oferece.

 

A literatura, enquanto arte, depende justamente de todos esses símbolos para acontecer. Logo, para um escritor trabalhar a realidade em seus escritos, é preciso identificá-la em si mesmo, lidando justamente com o seu psico, que também podemos chamar de, “o mundo de Alice”.

 

Acredita-se que um escritor, justamente pela riqueza de seu imaginário, tem mais facilidade para habitar o que muitos gostam de chamar de o “mundo de Dionísio” – termo esse usado por Nietzsche para definir a teoria da arte – que anuncia: "o desejo de ultrapassar o próprio destino, enfrentando-o, levando os heróis trágicos a transgredirem os limites da existência, desafiando os valores estabelecidos”.

 

Para ele, a arte é capaz de proporcionar experiências dionisíacas, sem que se seja aniquilado por elas, possibilitando a embriaguez sem que a perda da lucidez aconteça.

 

Nietzsche também afirma que a realidade dionisíaca não é para todos, por considerar que a experiência dionisíaca tende a permitir respirar na “mais monstruosa paixão e altitude”... exercício que requer saúde peculiar (sanidade plena), uma vez que o individuo será obrigado a vivenciar a perigosa aventura de percorrer os limites da alma: “a saúde pertence a quem tem sede na alma de percorrer com sua vida todo o horizonte dos valores e de quanto foi desejado até hoje, quem tem sede de circum-navegar as costas deste ideal mediterrâneo”.

 

Na contramão disso tudo está o leitor... que tem sede e bebe da inesgotável fonte criativa de seus leitores, alimentando-se dessa realidade, que pode ser ou não identificada ao ser tragada no momento da leitura. Por isso, a literatura comumente é dividida em real e fantástica.

 

A narrativa fantástica pega o leitor pelas mãos, conduzindo-o por uma espécie de mundo paralelo, onde é possível voar, ser eterno, azul... ser metade bicho, metade homem. Encontrar portas mágicas que conduzem a realidades diversas, mundos artificiais... é possível ser a Bela que se apaixona pela Fera. Um menino órfão que vai viver na Terra do Nunca.

 

E, ao ter contato com esse tipo de texto, o leitor, propenso à fantasia, acaba inserindo elementos fantásticos próprios à literatura e, o próximo passo é fazer parte de uma realidade outra, onde ele vê a si mesmo, voando ou habitando outros cenários tão reais quanto seu imaginário é capaz de afirmar que sejam.

 

Experimentam, por assim dizer, da “embriaguez dionísica”, sendo preciso apenas um único gole desse líquido sagrado.

 

Em paralelo a isso, existem os leitores que não conseguem se alimentar dessa “falsa realidade”, justamente por a considerarem demasiadamente fantasiosa, sendo impossível para suas mentes reconhecerem nesse “universo” uma possibilidade ou um conjunto de símbolos confiáveis. São seres que precisam do que é palpável, objetivo e mensurável. São os chamados leitores “pés no chão”.

 

A psicologia acredita que, na idade em que o mundo imaginário foi alimentado, algo aconteceu, impedindo o acúmulo de informações. Lacan afirma que, algum tempo após o nascimento, toda imagem do objeto ou coisa que é captada pelo bebê através do olhar será inscrita e registrada no seu psiquismo como pertencendo ao campo do imaginário, mas se algo – como um trauma – se sobrepõe, o imaginário simplesmente se liquefaz e não volta, em momento algum, a se reorganizar.

 

Assim sendo, o indivíduo experimenta a partir de então o que lhe é confiável: imagens reais, facilmente identificáveis, que lhe transmitem conforto, tais como o rosto de sua mãe, pai ou outra pessoa significativa para a criança. Logo, preferem narrativas comuns, próximas, que permitam a eles reconhecerem o que lhes são figuras familiares.

 

Uma rua sem saída, uma casa branca no meio do quarteirão ou o banco de uma praça num bairro conhecido de uma cidade que, mesmo tendo o nome citado, pode ser qualquer lugar do mundo...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Alice | Carta à Alice…

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.
(Alice no País das Maravilhas)
Lewis Carroll

 

 

alone-cute-diary-girl-green-nature-Favim.com-91678_large

 

 

Querida Alice, embora eu viva no seu mundo, você quase não conhece o meu. Com exceção de uma rainha de copas que anda rondando minha vida, em mim quase tudo é maravilha. E devo isso a você.

 

O seu sonho adentrou dentro do meu sonho e ganhou asas. O tempo, esse tão curto que o Coelho avisou, passou ligeiro por aqui. — nem vi meu filho crescer. Hoje, olho do lado e vejo um homem naquele menino que ensinei as primeiras palavras — nem percebi o som da fala, o bigode desenhado. Eu sempre vi ali, um menino. O meu menino. Que ganha asas e voa pelo mundo, independente de mim.

 

As paredes me apertam aqui, Alice. E sufocam meus pensamentos na ligeireza dos dias. E beber o líquido da vida me faz tão pequena. No mundo falta água. E vejo aqui, onde moro, o desperdício dessa bebida tão essencial. Um dia aprenderemos? — sei lá! Tenho medo! — Acho que não.

 

Mas ainda assim, no dedilhar dos meus dias maravilhas me alcançam onde passo. O riso solto de uma criança. O voo do meu beija-flor Chiquinho que me visita todos os dias de manhã, como se despejasse em mim no seu cantar a maravilha de viver.

 

Os animais me perseguem como a ti, Alice. Tenho aqui no meu quintal libélulas dançantes no varal onde minhas roupas dançam para secar. Borboletas pousam entre o aconchego de minhas mãos e na delícia dos dias vejo uma maravilha de gente na vida. Vejo-me nas metamorfoses das rotinas e sou invariavelmente rompedora de casulos de sonhos, de vontades e de desejos.

 

Dentro dos meus sentidos, Alice, percebo as coisas que acontecem ao redor como se eu fosse uma personagem viva dessa história. Converso comigo mesmo e isso acontece com frequência, o que causa uma certa estranheza no meu cachorrinho que procura por pessoas invisíveis e abana o rabo como se me considerasse louca. Por falar em louca, me vem à cabeça a rainha de copas que vive rondando minha vida. Mas como o próprio Coelho amigo seu disse: “os poços da fantasia acabam sempre por secar e o contador de histórias, cansado tentou escapar como podia: o resto amanhã... Já é amanhã!”

 

Então, vamos lá, Alice... viver a vida esperando que o resto seja hoje por que o eterno dura apenas esse breve instante de viver.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Alice | País das maravilhas

 

alice



Quando menina li muito... sempre estimulada pelo meu pai, que não media esforços para aumentar nossa biblioteca, com os mais variados temas e autores.
Um dos livros que li foi Alice no País das Maravilhas... me encantei com cada personagem, e suas diversas características que o assemelham a um conto de fadas, quando lido por uma criança, mas que para adultos, ganha renovada dose de complexidade, dando asas a um sem fim de possibilidades.
Um paralelo entre a ficção e a realidade é por vezes, inevitável. Os adultos enxergam suas monstruosidades mais comuns, percebendo um jogo de manipulação de um individuo sobre o outro.
Na primeira cena do livro, Alice está sentada com a família, fazendo o que era comum na Inglaterra Vitoriana, em que tudo se explicava através dos livros e suas narrativas mais comuns. A menina começa a enfadar-se por nada ter o que fazer a não ser ler um livro sem figuras, apenas com diálogos. E o que quebra esse sentimento? A magia que ela mesma acalenta, mas desconhece – ao que tudo indica – e que vem a tona através de um coelho branco...
Cada um de nós tem dentro de si um país e uma pequena Alice, que pulsa e vibra em curiosidade e agitação... todos nós, em algum momento, nos sentimos esgotados, cansados e ao fechar aos olhos, ficando em silêncio, nos deparamos com fugas impunes que nos impulsiona ao desconhecido que somos. Tão atrativo, mas também tão perigoso olhar para dentro e entrar na toca do coelho...
Quando criança é tudo tão mais simples. É apenas um jogo onde a Alice vai de encontro a um mundo imaginário – dentro de um sonho, talvez – mas enquanto adultos, tudo tem duplo sentido, segundas intenções. É um constante jogo de cartas marcadas.
Os personagens que passam em nossa vida ao longo da vida são figuras dissonantes. Nunca sabemos o que serão de fato. Amigos ou inimigos. São possibilidades... alguns nos recebem em abraços demorados, outros nos furam os olhos com gestos inesperados. Exatamente como Alice e seu País.


Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Plural | Escrita Contemporânea…

 

 

escrita contemporânea

 

 

...é quase impossível afirmar quando se estabeleceu o período contemporâneo na arte brasileira. Nem mesmo os autores nos oferecem um consenso nesse sentido. Considera-se, contudo, que a arte contemporânea, em seus estilos, movimentos e escolas, tenha surgido como resposta à arte moderna, seguindo a corrente de se manifestar contrária à ordem, como aconteceu anteriormente com o Romantismo e, em seguida, com o Modernismo… 

 

Acredita-se que, depois da Segunda Guerra Mundial, os artistas mostraram-se voltados a uma reconstrução natural do mundo interior e exterior, utilizando-se de novas técnicas através do processo de experimentação… o que serviu para estabelecer novas possibilidades, gerando conflitos máximos e desorientações várias.

 

Todo o processo de ruptura leva, naturalmente, a um questionamento e, no caso da arte contemporânea, o estilo de vida amplamente difundido em cinema, moda, televisão e na literatura foi o mote para as criações futuras.

 

Em 1945, surgiu um dos movimentos que resultaria, possivelmente, no que hoje denominamos como sendo contemporâneo: a expressão "arte bruta" ou Art brut, em francês, concebida por Jean Dubuffet, visando dar nome à arte produzida por artistas livres de qualquer influência de estilos oficiais, incluindo as diversas vanguardas e as imposições do mercado de arte. Dubuffet via, no chamado "artista marginal" – termo este imposto pelo crítico Roger Cardinal –, uma forte motivação intrínseca, que culmina no uso de materiais até então impensáveis e técnicas inéditas ou improváveis.

 

Nos Estados Unidos, ao findar a Segunda Guerra, as condições econômicas impuseram uma nova ordem aos artistas, que se viram obrigados a fazer uso de um novo modo de pintar.

 

O pós-guerra criou um ambiente de dúvida, absurdo, medo, falta total de idealismo e, sobretudo, de possibilidades. A realidade dizia suas vertentes ingratas, levando muitos artistas ao suicídio causado por um desespero natural. Os sobreviventes se viam obrigados a experimentar... criando-se então uma estética abstrata ou "informal", para traduzir os sentimentos e impressões à sua agressividade.

 

Os artistas desenvolveram-se nesse cenário de liberdade, fazendo surgir o gosto pela mancha e pelo acaso, a preferência pelo rascunho e ao que, até então, era dito "inacabado". Nas letras, o uso das metáforas permitiu o "não dizer"… o repetir-se como forma de se fazer entender. O dizer pouco para não cansar.

 

Com um certo atraso, aconteceu o movimento underground ou Street Art que, segundo alguns críticos, veio refinar o movimento, transformando os traços das cidades… ocupando os cenários públicos, fazendo com que a arte deixasse os espaços fechados, indo viver ao ar livre.  Feito à revelia, esse "manifesto cultural" encontrou forte resistência junto à população e às autoridades, que se esforçaram em classificar esse estilo de arte como "vandalismo". Além do grafite, a arte urbana inclui estátuas vivas, malabaristas, mambembes, esquetes teatrais, interferências e outros... 

 

Na música, surgiu a chamada “canção de protestos”, com rimas carregadas em agressividade e versos marcados pela revolta. Na literatura, foi a vez das crônicas narrarem a realidade, acenando com a dureza das esquinas… narrando o desconforto de quem se encontra à margem de seus tempos – uma realidade até então recusada pela sociedade – que se viu impedida de fazê-los se calar.

 

O artista, acostumado até então à loucura de Dionísio, ao quarto escuro, ao mundo das formas inventadas, viu-se obrigado a enfrentar os cenários urbanos, a atmosfera carregada e o desconforto humano. É como se, de repente, o artista não fosse mais capaz de inventar o seu próprio mundo, onde tudo era estruturado a partir de ilusões que se estabeleciam pelo prazer de não ser igual…

 

O mais comum na literatura brasileira é, sem dúvida alguma, a literatura romântica, que marcou época e foi eleita como sendo a mais rica, profunda e merecedora de todos os louros da fama. Contra ela, surgiu anos mais tarde o Modernismo, baseado no movimento de mesmo nome na Europa... Os artistas, naqueles dias, queriam exaltar a terra, fazer uso do português popular, descaracterizando o formato coloquial que não vigorava nas ruas das principais cidades, cabendo o argumento apenas aos catedráticos, no caso, os escritores, que chegavam com suas riquezas ainda fundamentadas no imperialismo... A sociedade viu e não gostou, tal qual Monteiro Lobato, que insuflou a turbamulta contra os "modernistas", que viram seus nomes excluídos da história como se fossem meros "marginais" — estranhamente, anos mais tarde, seriam os "artistas marginais", consagrados pelo seu discurso intimista, pesado e agridoce, através de um diálogo consigo mesmos sobre as ranhuras da pele e os desacertos, a marcarem a literatura contemporânea...

 

Vimos surgir a voz de Ana Cristina Cesar, Lygia Fagundes Telles e tantos outros expoentes... que, nitidamente, aproveitaram-se da euforia dos Andrades — Mário e Oswald — para expressar suas sentimentalidades inéditas... mas, se antes o amor era a mola propulsora dos versos e rimas, a necessidade de ser e existir tornou-se o ritmo dos escritos contemporâneos, permitindo ensaios extensos acerca da matéria. 

 

Em meio a tamanha liberdade, o que percebemos é que, de tanto falar de si mesmo, o artista se distanciou do “objeto arte”, caindo no lugar comum das expressões… levando à estagnação dos temas. O que se vê no cenário artístico atual é o não saber fazer barulho, como tão bem o fez a arte moderna, causando incômodo e tirando o indivíduo de sua zona de conforto...

 

Repete-se aos quatro cantos o que se sabe e conhece… o que já se está acostumado. Não é dado a arte o direito de ultrapassar as místicas estabelecidas por um conjunto de senhores, caminhando no mesmo passo que a sociedade local, em silêncio, sem transcender, ficando difícil identificar e diferenciar o artista da pessoa comum.

O que temos, enquanto cenário, é esse regionalismo contínuo, com ideais e idéias que se repetem, como se ao contemporâneo fosse dada a permissão de refazer o que já foi feito, aplicando uma nova camada de tinta... fora isso, temos sorte de ter, em tempos, uma ou outra voz que salta o silêncio e, nos alcança.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Carta ao Leitor | Thelma Ramalho

 

Capa - plural maio

 

 

A poesia me foi apresentada por uma antiga coleção chamada O Mundo da Criança, eram 15 volumes, com versos e cantigas infantis, contos de fadas, musica, educação, era quase um Google.

 

Comecei a decorar versinhos ainda criança, durante a brincadeira de roda com os amigos... nos dávamos as mãos e, cantarolávamos até cair: "o cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada"...

 

Na escola conheci a Cecília: "ou isso ou aquilo"... será que foi com ela que aprendi a ser tão prática e sonhadora?

Ganhei os sonetos de amor do Vinicius como presente de quinze anos e os guardei na estante, mas eu insistia em dizer que não gostava de poesia.

 

Até que um dia, na dor de amor encontrei a explicação para tudo que sentia com o Neruda que "ele" me emprestou e que eu li por inteiro, ao contrário da música do Chico Buarque.

 

E a poesia é um mal contagiante, depois de um livro... queremos mais e, a cada dor e a cada lágrima, novos nomes surgiram traduzindo o que eu estava sentindo.

 

Florbela e seus poemas passionais... Hilda com versos em carne viva. Ana Cristina César mimeografando a vida... Manoel de Barros em sua simplicidade total. Adélia falando diretamente comigo, Emily em sua reclusão dizendo tanto do mundo... Drummond indo diretamente ao coração e,  as várias pessoas no Fernando... Ah! E o Quintana que me fez sentir seus versos. São tantos que nem posso enumerar, sempre ficará alguém para depois, logo mais, depois de amanhã...

 

Mas é preciso dizer que nos versos dos poetas, eu encontrei abrigo... e puder rir da pessoa que dizia que adorava ler mas detestava poesia…

 

A vida fica mais leve nos versos dos poetas porque a poesia está na vida, nos dias, nas horas, nas palavras, nos momentos, no pensamento. A poesia vive e se alimenta dentro da gente... nasce na escrita, na palavra dita.

Hoje eu afirmo que a poesia é nosso sentimento transformado em palavras... 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Personagem | Eugênio de Andrade

 

eugenio de andrade

 

Quando se conhece de fato um homem? Quando lhe sabemos o nome, o endereço, ou o número do documento? Dizem que é preciso sentar-se à mesa e provar de uma saca de sal em sua companhia. Será?  

 

Eu posso dizer que conheci Eugénio de Andrade: não o homem em si, mas o poeta que ofertou, em vida, pouco mais de  uma dúzia de versos e que, por escrever com a perfeição que me cabe dizê-la, foi considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos...

 

A primeira vez em que nos "encontramos" foi na voz de seu tradutor, Carlo Vittorio Cattaneo, que levou suas linhas para o italiano. Publicou-se "escrita de terra e outros epitáfios" — poemas escritos entre 1971 e 1972 que, segundo dizem, eram um punhado de versos escritos a partir das preocupações de Eugénio, que nasceu José Fontinhas... em Póvoa de Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa, situada entre o Fundão e Castelo Branco, filho de uma família de camponeses: "gente que trabalhava a pedra e a terra"...

 

O que se reúne "nesse primeiro caderno" é toda a poesia do autor até aqueles dias. Um livro. Um texto e a certeza de que talvez pudesse não haver muito mais. Nunca se sabe quando o poeta morre, sabe-se apenas quando o homem vem a falir suas funções, deixando o corpo para habitar um infinito. Um vale — talvez um labirinto — do qual não se escapa...

 

Embalados por lembranças, seus escritos obedecem a princípios comuns. É possível ouvir uma voz antiga a ecoar seus dias de menino... e, com ela, uma euforia natural, agradável. Seus poemas, geralmente curtos, mas de grande densidade e aparente simplicidade, privilegiam a evocação da plenitude da vida e dos sentidos. É possível perceber a figura materna, presença constante, a lhe estender a mão e dizer o caminho... como também se faz sentir a presença do tempo, numa confusão comum aos escritores. Ele se perde em presente, passado e futuro — misturando-os... Mas há outros muitos elementos, como a morte que fala alto, forte e, por fim, o tempo, que passa a ser uma espécie de sirene a soar forte na pele imersa em rugas. Percebemos então o envelhecimento do homem...

Figura ébria. Sem sol. Apenas nuvens num deserto de si mesmo. Sua poesia é chuva ácida a corroer os campos da alma de quem a toma para si... ele se ajoelha e confessa com um sorriso branco-manso-e-sem-desenhos-de lábios as suas linhas: "poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria"...

 

Eugénio não poupava o coração, que pulsou pela primeira vez em 10 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, no seio de uma família de camponeses. Passou a infância a correr pelos campos ao lado da mãe. Ali, ganhou seu olhar de horizonte e percebeu que o silêncio é bebida sagrada, dessas que bebericamos em pesados goles, sem que o cálice se esvazie... Eugénio soube, desde então,  que, depois que se prova desse "líquido abençoado", só é possível sangrar palavras...

 

Enquanto homem, habitou muitos lugares, sem pertencer a nenhum deles. Da mesma forma, sua palavra não encontrou esteio nos movimentos literários e, se não os ignorou completamente — olhou de canto de olho — mas não se ausentou das publicações em revistas...

 

Eugénio, o poeta, tinha uma escrita metafórica — imersa em ritmos — quase uma música que se ouve e decora, para repetir seus versos num fim de tarde qualquer, quando as lembranças saltam de dentro da  pele e a realidade é essa pausa necessária no tempo presente para se somar iguarias... "onde um beijo sabe a barcos e bruma / no brilho redondo e jovem dos joelhos / na noite inclinada de melancolia / procura. / Procura a maravilha”...

 

 

Urgentemente

 

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

 

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos, muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

terça-feira, 1 de julho de 2014

domingo, 29 de junho de 2014

Cafeína na Veia | A POESIA QUE SE LÊ HOJE EM DIA

 

Por Tatiana Kielbeman

 

diary

 

 

Já deixou de ser novidade que o mundo gira de maneira cada vez mais veloz e, em incontáveis momentos, o ser humano se vê atropelado por seus próprios passos.

 

Não raro, isso acontece até mesmo sem querer: planejamos aquela leitura tão esperada, o passeio diferente em família, encontrar um amigo que não vemos há meses e... num piscar de olhos, tudo o que havia sido programado vai por água abaixo.

 

O que ocorre não é falta de vontade, nem displicência: o tempo simplesmente escorre pelas nossas mãos, fazendo com que compromissos de trabalho, reuniões urgentes e imprevistos de última hora se sobressaiam em relação aos demais itens da rotina. Perdemos a noção de prazos e, uma vez que tudo se tornou tão urgente, fica difícil priorizar ou fazer escolhas.

 

Em meio a essa reflexão, eu me pego pensando na poesia. Sim, na poesia! Não aquela rebuscada, que se diz feita para literatos. A poesia nossa, de cada dia...

 

Quando foi a última vez que você se permitiu pegar um livro aleatório em sua estante e ler — para si mesmo — um punhado de versos? Ou entrou em certa livraria, despretensiosamente, e passou alguns instantes degustando estrofes?

 

Garanto que, mesmo que você seja amante de leitura, poucas vezes oferece a si mesmo esse deleite. Talvez opte por comprar os novos títulos dos seus autores preferidos logo que são lançados, até mesmo pela internet — o que acaba por tirar um pouco do prazer visual que antecede a aquisição de um bem tão subjetivo como é o livro.

 

Em um panorama de velocidade, dinamismo e impaciência, nós — indivíduos vorazes — raramente nos damos ao luxo de parar por um instante e apreciar a beleza que o poético oferece.

 

Não há pausas. É preciso produzir, caminhar, seguir, trabalhar, agir. Ler? De preferência, se for algo voltado a trabalho — e rápido. Não temos tempo a perder. Mas, com isso, quanto será que também deixamos de ganhar?

A poesia compete com a televisão, com o computador, com os smartphones e, por que não dizer, com o próprio sono, que anda escasso para os humanos que se inserem na sociedade de hoje em dia. Por que ler poesia se posso usar esse tempo para dormir? É triste, mas é real.

 

O que me conforta e se faz um alento para a alma é saber que têm sido lançadas, recentemente, coleções com a obra poética de grandes nomes da literatura brasileira e internacional. Livros de cabeceira, quase verdadeiras enciclopédias, para quem tem olhos de ver. De sentir. De se permitir encantar.

 

Além disso, talvez a poesia ainda esteja a salvo em saraus, rodas de leitura, peças de teatro e, principalmente, nas mãos daqueles que separam um pequeno espaço de suas vidas — tão corriqueiras e atribuladas – para ler e escrever versos.

 

A poesia anda escondida em algum canto por aí nos dias de hoje... Quem se puser a encontrá-la, certamente terá um tesouro inestimável nas mãos.

sábado, 28 de junho de 2014

Personagem | Cecília Meireles

cecilia meireles

 

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno”.


Cecília Meireles nasceu no Rio, em 7 de novembro de 1901, mesma cidade em que morreu, a 9 de novembro de 1964. A menina foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides. A paixão pelos livros e a leitura norteou toda a vida de Cecília — desde a juventude até a sua vida adulta. Aos 16 anos, se diplomou professora. A vontade e o fascínio pelo "saber" a conduziram para o estudo de outros idiomas e para o Conservatório Nacional de Música, onde teve aulas de canto e violino. Ainda que "fizesse versos" e compusesse cantigas como se estivesse a "construir" brinquedos desde a escola primária — é na adolescência que Cecília Meireles começa a "escrever poesias".

Em 1919, aos 18 anos, ela publica seu primeiro livro de poemas — "espectros" — iniciando um período de grande produção.

 

(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano”.

 

Casou-se com o artista plástico português Fernando Correa Dias que viria a ser o ilustrador de futuras obras da poeta e pai de suas três filhas. Três Marias. Elvira, Matilde e Fernanda. Um ano depois do casamento, Cecília Meireles publicou — "nunca mais... E poema dos poemas". Em 1925 veio o terceiro livro — "baladas para El-rei" — mais tarde, esses trabalhos seriam excluídos de sua biografia pela própria poeta.

Em 1949 lançou o livro — "retrato natural" — que foi recebido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, que na época assinava uma coluna no Jornal de Letras do Rio de Janeiro: "Uma espécie de retrato natural da fisionomia da Sra. Cecília Meireles, e que a situa definitivamente na corrente tradicional dos poetas peninsulares... Com a Sra. Cecília Meireles, o verso português não sofre nenhuma distorção violenta. Apenas ficou mais fluido, adquiriu uma diferente e surda musicalidade. Bem a qualificou outro grande poeta, João Cabral de Melo Neto: libérrima e exata." 

Cecília não se juntou aos modernistas, embora tenha trocado intensa correspondência com um dos líderes do movimento — Mário de Andrade — de quem foi amiga e, despediu-se dele como se soubesse de seu fim antes do derradeiro desfecho da história do homem que lia suas linhas e, as corrigia - indicando o melhor caminho. Em seu último livro, ele foi decisivo nas escolhas dos versos e, na correção de muitas linhas. Ela tinha pressa de ter o livro em mãos para fazer chegar aos olhos do poeta — disse Cecília em tom de lamento "nunca há tempo o bastante — nunca há tempo" — ele, Mário de Andrade não pousou os olhos nos livros da mulher poeta que jamais admitiu a alcunha "poetiza" por considerar a palavra menor e sem importância.

Se fez poeta e em suas linhas nos brindou com o olhar agudo sobre si mesma. Sua dor escorre nas metáforas empregadas e, sobretudo, nas palavras que se repetem, como o mar - sua maior obsessão - e, a morte - o destino final de todos que despertam para a vida. Cecília não fala em medo - o que se percebe é uma curiosidade quase mórbida pelo fim, afinal, enquanto artista sabia do destino que entregava a pena, enquanto figura humana dependia da misericórdia de um deus que durante muito tempo buscou entender.

A mulher que esperava os filhos adormecerem para começar sua arte — durante algum tempo deixou de lado a poeta para dar voz a Educadora que sempre pensou na necessidade de uma educação plena, mas ao bradar seus anseios aos quatro cantos encontrou resistência por parte de certos senhores que sabem bem o peso da palavra bem empenhada. Voltou a poesia e com ela morreu Cecília. (...) “Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”.

 

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Cafeína na Veia | Entrevista

]luciana, contos do poente

 

 

De palavras. Luciana é feita de palavras. Rita é feita de palavras. Com palavras fazem. Fazem histórias, fazem personagens, leitores fazem. De desenhos e cores é feita Joana. Com desenhos e cores faz viagens, faz viajores. Criam juntas, a tríade, um universo. Feminino universo.

 

Feminino? O que eu estou dizendo? Feminino e masculino compõem os versos que unem o universo – verso uno: avesso à cisão, uno e simples e complexo. Como as linhas delas e as entrelinhas delas – com elos entre desenhos e palavras... Nos contos, sonhos, memórias, fantasias se cruzam, se dissipam, se reacendem. Uma mulher, um homem, uma menina, outra mulher, outra menina, encontros, histórias...

Os textos e ilustrações (que também são textos), os textos e ilustrações deste livro estão vivos. Os bons textos são vivos. E livres. Sobrevivem ao tempo e transcendem distâncias. São livres, os livros. E dos leitores, os livros são asas.

 

Boa viagem a todos, sem mais bagagem que palavra e silêncio...

Por Henrique Beltrão

 

 

“A rua a recebe sem estranheza nem alegria, é mais uma na rua ensolarada, os transeuntes não sabem que ela tem um encontro, o asfalto não sabe, nem mesmo o sol que lá de cima parece tudo conhecer como um olho esfuziante, nem o sol sabe: ela tem um encontro. Os passos são ágeis, a idade verdadeira dá lugar à idade do passo de quem vai a um encontro. Sabe que está atrasada, mas não se apressa, não é preciso suar por um atraso de quarenta e nove anos. O seu sorriso, se alguém reparasse bem, bem serviria para um retrato de monalisa. Ela tem um segredo, ela tem um encontro.” — texto extraídos de Pérolas, escrito por Luciana Nepomuceno. Contos do Poente, 2013

 

Quando você soube que queria se escritora?

— eu acho que nunca soube. Não sei ainda se quero. Escrever não é uma opção ou escolha, é algo que faço, que me ajuda a existir. E, vez ou outra, me dá prazer. O caso do livro, escrevê-lo foi uma boa desculpa para estar mais próxima de pessoas admiráveis por quem tenho enorme bem querer.

 

De que maneira você descreveria o processo de escrita do seu livro?

— eu geralmente “vejo” frases na minha cabeça. E as burilo até ficarem do jeitinho que gosto, com alguma sonoridade. Sem escrever, só por dentro. Vou testando palavras. Quando estou satisfeita com a frase,  fico pensando onde ela poderia estar. Em que história ela poderia existir. Aí vou criando cenário praquela frase existir. Às vezes, ironicamente, na revisão do texto, a frase virou excesso e é cortada.

Esse processo é comum para os textos no blog, cartas pra amigos e também esteve presente na escrita do livro.

 

O que influencia a sua maneira de escrever? 

— os autores que li. As coisas que vejo na rua. As boas conversas no bar. A necessidade de dizer algo do que me é em vazios. E o cheiro do mar.

 

Como foi escrever um livro?

— foi uma festa. Ele foi forjado em encontros, cumplicidade e beleza. Serei sempre grata à Joana que teve a idéia de fazer o livro e à Rita por ser co-autora, amiga generosa, cúmplice na escrita e trabalhadora incansável. E foi uma surpresa reler os contos todos e achar que sim, alguém poderia gostar de tê-los na estante.

 

Qual foi a parte mais difícil de escrever um livro?

— dois momentos bem complicados: a) Começar. Acreditar que alguém poderia desejar lê-lo e b) depois de terminado, entregar os contos pra revisão. Aceitar sugestões, mexer ou cortar partes do texto. É difícil entender que já não é só meu, que outras pessoas vão ler e interpretar – algumas vezes de forma distinta do sentido que eu pensei dar.

 

O livro pra você é um objeto em primeira, segunda ou terceira pessoa?

— Flaubert disse: “Madame Bovary sou eu”. Acho que o que fazemos nos constrói  e, ao mesmo tempo, o que somos constrói o que fazemos e como fazemos.

 

Você tem um blogue. A voz a escrever para o livro é a mesma?

acho que a diferença mais significativa entre escrever pro blog e escrever o livro foi o artesanato embutido no aprimoramento do texto. Os posts dos blogs vão mais crus, menos trabalhados, com pequenos erros que, de certa forma, o enriquecem. O livro demanda um trabalho diferente, um olhar mais acurado. A beleza do post no blog é dada, em grande parte, pela sua fugacidade. O livro é o inverso, ele é (pra mim) mais interessante quando parece criar raiz nas estantes.

 

Quem é a pessoa do livro?

— difícil responder. No caso desse livro, onde foram tantas mãos e olhos e trocas, acho que a narrativa é conduzida não por uma pessoa, mas por emoções ou vivências que ganham corpo e voz temporários e que podem ser identificados e tocar quem (se) encontra (n)o livro.

Carta ao Leitor

CASA INABITADA.

— VIRGINIA CELESTE

 

a ignorancia se tornou um crime indesculpavel

 

Não quero nos desejar um ano melhor. Quero que sejamos melhores para esse novo ano.  Eu nem tenho essa necessidade de finais/ começos de coisas: fui à minha formatura obrigada, não fui assinar papeis de casamento, não gosto de festas de despedidas e não faço questão de réveillons: não entendo a vida em ciclos. Vejo nossos passos como um emaranhado de linhas e a morte, bem, ela é o arremate final.

 

2013 foi um ano bom: se eu ainda tinha alguma dúvida de que nasci para ensinar, essa se desfez. Adoro alunos e alunas me procurando nos corredores; pessoas desesperadas te procurando no Facebook para ter orientação sobre algum assunto; pessoas que acreditam que o que você fala é verdade – quando você sequer acredita que a verdade exista. E eu digo isso a eles: o quanto vemos através de espelhos essa realidade que nos escapa!

 

Ser professora alimenta meu ego. Também muita coisa fez sentido palpável: em junho, em nossas manifestações roubadas por Coxinhas (vade retro!), parei para pensar no que entendo sobre justiça social. Em meio àqueles gritos dispersos de protestos sem noção política alguma, lembrava muito de meu pai e de quando este me dizia que, se faltava leite para uma família era porque tínhamos sobrando em casa. O resto é mimimi. E esse mimimi de classe média já deu!

 

Daí hoje vieram me desejar mais dinheiro e mais tantas-coisas-que-eu-já-tenho-que-não-podia-ter-mais. Fora a saúde, estou dispensando o resto, por mais bem intencionado que os outros desejos sejam, eu estou passando a

frente.

 

A gente sempre se convence de que precisa mais do que já tem, já dizia mais ou menos Renato Russo na música Índios. Por isso, não me desejem dinheiro: o que eu tenho dá para ter casa, comida, cuidar dos meus animais, pagar uma boa internet e ainda me dá luxos de comprar coisinhas nerds de vez em quando. Isso já é mais do que muita gente tem. Não quero mais. Obrigada.

 

Felicidade? Gente, desejem felicidade para quem não tem teto, para quem não tem trabalho, para quem não tem chance, para quem não tem comida. Eu serei bem mais feliz quando passar e não ver gente na rua, no frio, ao relento.

 

Alguém me desejou mais livros para ler… esses dois anos que passei longe da academia, me fizeram ver tantas coisas novas. Coisas que os livros não dizem. Coisas que os livros não suportam. Coisas que se assemelham apenas ao ato de sangrar: é preciso sentir, nenhuma mimese funciona.

 

Que em 2014 esta Casa continue em pé, mesmo com a morte a pôr umidade da parede e cabelos brancos nos homens, como diria Fernando Pessoa.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cafeína na veia | Por Lunna Guedes

 

“Termino uma xícara de café, seguro o livro em mãos — lanço um olhar de misericórdia junto a paisagem — enquanto me distancio de mim mesma ao mesmo tempo em que mergulho nessa realidade entre mundos. A xícara de café ao lado com seu líquido escuro-forte-negro é a minha âncora!”

 

Revista Plural

 

Eu não sei dizer quem foi a primeira pessoa a pensar na figura do escritor como sendo alguémsolitário-triste-a-viver-num-quarto-escuro — mas sei com certeza que ao longo dos anos a figura do escritor passou a participar do imaginário popular como alguém que habita um cômodo embaçado pela fumaça de um cigarro — escuro — com uma mesa onde uma máquina de escrever se mostra pronta para aquela “sinfonia” de palavras dividindo espaço com uma xícara suja de café, algumas garrafas, uma pilha de folhas do lado direito, um lápis preto para eventuais correções do lado esquerdo e o chão coberto por centenas de folhas amassadas.

 

Talvez por isso, seja tão difícil para as pessoas compreender que um escritor possa escrever em um movimentado café numa cidade como Paris, Londres ou mesmo São Paulo.

 

Escrever é um hábito — uma rotina, mas pode ser uma tortura para pessoas que precisam de um santuário sagrado para por em prática as suas idéias. Isolar-se não é exatamente uma necessidade. O escritor precisa renovar-se — inventar-se, as vezes reinventar-se — e, não existe melhor maneira de conseguir isso que estar bem no meio da turbamulta. Não existe mística, cerimonial ou receita ideal — o que existe realmente é o lugar onde sua alma se aconchega e o corpo se liberta da tal realidade enfadonha que maltrata os olhos e impede os dedos de pincelar aquela ilusão que o cérebro germina. Pode ser um quarto escuro, o banco de uma praça ou o acento de um ônibus lotado — a mesa de um café ao fundo junto a uma janela de frente para uma rua movimentada. Seja qual for o cenário, o importante mesmo é encontrar-se em si mesmo.

 

Alguns escritores são mais vulneráveis às distrações do cotidiano do que outros. O inglês Charles Dickens, por exemplo, apesar de muito produtivo — só conseguia trabalhar no mais absoluto silêncio. Ele precisava de sua mesa cuidadosamente decorada e, de frente para uma janela. Já a inglesa Jane Austen parecia ser possuída por uma invejável concentração inabalável — a autora morava com a mãe, a irmã, uma amiga e três criadas numa casa que recebia visitas constantes. As interrupções não a impediram de escrever romances como Orgulho e Preconceito e Mansfield Park em pequenos pedaços de papel que ela escondia para dar atenção aos convidados.

 

Figuras indômitas que vivem imersas em manhas e manias — os escritores, em geral — são vistos como figuras excêntricas. Quem olha de longe — a primeira vista — talvez não os reconheça, mas basta alguns minutos de atenção para sabe-los. Introspectivos e silenciosos. Completamente desligados do mundo a sua volta. Sentados sempre no canto oposto a multidão — e totalmente focados em si mesmos. A melhor companhia para eles é um bloco de notas ou em tempos modernos, um computador. A presença humana ao lado deles é quase sempre dispensável porque escritores raramente não são figuras sociáveis.

 

É praticamente impossível citar um único escritor que não tenha um hábito estranho ou um vício dito maldito. Basta ler a biografia de certos senhores e senhoras para descobrir algumas de suas euforias. Virginia Woolf dizia que um escritor precisa ter um quarto pra chamar de seu com uma mesa e uma prateleira de livros. Honoré de Balzac tinha uma rotina de trabalho que para muitos beirava a insanidade. Ele jantava às 18 horas. Dormindo em seguida para acordar a 1 da madrugada e trabalhar até às 16 horas embalado por dezenas de xícaras de café. A escritora de suspense Patrícia Highsmith costumava beber uma dose de vodca antes de escrever e, Borges tinha sua cadeira cativa em um famoso café em Buenos Aires onde dizem, escreveu o seu melhor. 

 

Em tempos modernos, os Cafés das principais cidades do mundo tem sido povoada por escritores. As gerações se encontram sem o confronto direto. Uns escrevem novelas, outros romances. Alguns apenas rabiscam versos – mas a grande maioria se embriaga de café forte como se o líquido fosse  um elixir sagrado. Evandro Affonso Ferreira, autor de “minha mãe se matou sem dizer adeus” confessa “escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias, cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim”.

 

A Srta. Rowling escreveu seu primeiro Harry Potter  no aconchego de um café em Edimburgo “meu lugar ideal para escrever é em um grande café com um pequeno canto onde haja uma mesa perto de uma janela com uma boa vista para uma rua interessante para onde possa olhar de tempos em tempos em busca de inspiração. Gosto de café bem forte e, do movimentos dos baristas e dos frequentadores do lugar – nada me distraí ali, tudo me inspira. Senti muita falta desse cenário ao escrever meu novo livro” – lamenta-se a autora que por causa da sua fama, já não consegue mais exercer seu ritual de escrita.

 

Não há dúvidas que a autora do bruxo mais famoso do mundo ajudou a impulsionar em muitos escritores o desejo de escrever em Cafés que são ambientes onde o objeto de adoração é a xícara e o aroma que se precipita junto a um diálogo de iguais. O escritor ali ao lado é um estranho que passa em branco – não chama a atenção – pode ser visto como um estudante que prefere o lugar para não se sentir tão sozinho. Um profissional liberal que faz da mesa o seu local de trabalho ideal ou um simples leitor que quer um instante apenas para si – e, ali ao lado, o escritor a dizer-se em linhas…

 

Lembro-me do tempo em que café era pra mim a companhia para o bolo recém-assado nas tardes de março lá em casa — servido em canecas individuais – a gente se sentava a mesa e os diálogos se precipitavam. Era o nosso momento. Na casa da nona, as canecas de café vinham acompanhadas por uma fornada de biscoitos com gotas de chocolate lá pelas nove horas da noite. Naquele tempo a gente dormia cedo.

 

A minha primeira visita a um desses Cafés aconteceu em meados dos anos noventa — em Paris — cenário inusitado para os meus olhos. Lembro-me de ficar anestesiada com aquele lugar com mesas junto às calçadas e, do lado de dentro um falso fim de tarde que a decoração interna “provocava” nos olhos. Havia um sem fim de pessoas lendo jornais, livros, revistas – dialogando suas realidades e, apenas uma senhora a escrever sobre a perna direita em um caderno. Ela estava tão concentrada que parecia ser impossível demovê-la daquele gesto. Ao seu redor aconteciam diálogos inteiros — pela metade. Olhos buscavam por outros olhos. Mãos buscavam por outras mãos e, ela ali em seu silêncio imperturbável. De imediato — confesso — pensei em me apropriar daquele gesto que viria a se tornar uma espécie de ritual em meus dias. Sentar-me em uma mesa de Café é o mesmo que despertar meu consciente para outra realidade – inaugurando-me em mim mesma,  provando de minhas memórias em cada gole de café forte ou em cada movimento que se precipita junto a mim.

 

É justamente para esse lugar entre esquinas que levo o livro, o computador, o caderno de capa vermelha e as muitas notas mentais que se precipitam durante os passos pelas calçadas. Tudo isso se "ajunta" nessa espécie de diálogo — solitário — que as vezes alcança o outro que ocupa a mesa ao lado. Aqui em São Paulo eu ocupo as mesas da Starbucks desde que a mesma inaugurou seu espaço no ano de 2006 na Alameda Santos e, já tive que responder muitas vezes as mesma pergunta “como você consegue escrever num lugar desses com tanta gente entrando e saindo?” –  seria simples dizer que escrever é o mais solitário de todas as atividades e, na hora de enfrentar essa grande e devastadora solidão, cada um tem sua própria receita infalível…

 

Em tempos contemporâneos, ainda são muitos os escritores que sigam olhando de lado para os Cafés e seus cenários inusitados – sem se deixam seduzir – preferindo o conforto de seus quartos escuros. Alguns ainda confessam acalentar secretamente essa vontade como é o caso de Liliane Prata “na verdade, há três anos, quando comecei a trabalhar em casa, era esta cena que eu visualizava na minha cabeça: eu num café, com meu lap top, escrevendo. Seria minha vida refinada. Para que ficar sozinha o dia todo em casa, de pijama, na frente do computador, me virando com meu bule e meu coador de pano? Estaria num agradável café, comodamente ajeitada numa cadeira, bem concentrada, bem cosmopolita, pedindo mais um expresso. O fato é que três anos se passaram e eu continuo em casa, de pijama, na frente do computador, me virando com meu bule e meu coador de pano. Sempre vou a cafés, mas para ficar à toa, ler ou encontrar os amigos. Assim como continuo sem comer maçãs na rua”. Na mesma linha está também a jovem escritora Tatiana Kielberman  “confesso nunca ter me concedido a oportunidade de escrever em um café, nem mesmo de passar horas folheando meu livro predileto sob o aroma desta bebida que me é tão cara... Esses não deixam de ser desejos verdadeiros da alma, mas é como se precisassem de um planejamento, de todo um ritual para acontecer... Penso que, quando eu puder me desprender de normas ou regras, talvez consiga oferecer a mim mesma tais regalias de modo cotidiano... E, então, nem restam dúvidas de que não vou querer outra vida! Ah! Se precisasse escolher um local para debutar, certamente seria a Starbucks da Alameda Santos, em São Paulo, pois a partir dos cafés compartilhados com amigas, aquele ponto de encontro já se tornou sinônimo de aconchego e leveza para mim”.

 

O fato é que o escritor precisa encontrar uma posição confortável e, nela permanecer porque uma habilidade comum a todo escritor é a de sentar-se quieto para poder embalar sua monotonia. O estado criativo que embala a mente dos artistas geralmente culmina em um estado de espanto – onde tudo é possível, menos existir em si mesmo.

 

“Prefiro escrever de manhã, mas raramente consigo.
Há alguns anos abandonei meu quartinho e comecei a sair pra trabalhar.
Escolhi alguns Cafés da cidade. Quando engreno num conto ou romance,
tenho o hábito de anotar frases em papéis soltos e superfícies aleatórias —
já tomei muitas notas em guardanapos. Resolvo muita coisa nesses momentos,
quando não estou “oficialmente” escrevendo — é aí, em geral,
que as melhores ideias aparecem. Não existe prazer maior que passar
pro computador um bom trecho de prosa rascunhado num pedaço de guardanapo.
Parece que o mundo se organiza. Minha gasolina é o café, forte e sem açúcar, de preferência recém-passado no coador ou saído daquelas máquinas de expresso”.

 

Chico Mattoso
autor de Nunca vai embora.