quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cafeína na veia | Por Lunna Guedes

 

“Termino uma xícara de café, seguro o livro em mãos — lanço um olhar de misericórdia junto a paisagem — enquanto me distancio de mim mesma ao mesmo tempo em que mergulho nessa realidade entre mundos. A xícara de café ao lado com seu líquido escuro-forte-negro é a minha âncora!”

 

Revista Plural

 

Eu não sei dizer quem foi a primeira pessoa a pensar na figura do escritor como sendo alguémsolitário-triste-a-viver-num-quarto-escuro — mas sei com certeza que ao longo dos anos a figura do escritor passou a participar do imaginário popular como alguém que habita um cômodo embaçado pela fumaça de um cigarro — escuro — com uma mesa onde uma máquina de escrever se mostra pronta para aquela “sinfonia” de palavras dividindo espaço com uma xícara suja de café, algumas garrafas, uma pilha de folhas do lado direito, um lápis preto para eventuais correções do lado esquerdo e o chão coberto por centenas de folhas amassadas.

 

Talvez por isso, seja tão difícil para as pessoas compreender que um escritor possa escrever em um movimentado café numa cidade como Paris, Londres ou mesmo São Paulo.

 

Escrever é um hábito — uma rotina, mas pode ser uma tortura para pessoas que precisam de um santuário sagrado para por em prática as suas idéias. Isolar-se não é exatamente uma necessidade. O escritor precisa renovar-se — inventar-se, as vezes reinventar-se — e, não existe melhor maneira de conseguir isso que estar bem no meio da turbamulta. Não existe mística, cerimonial ou receita ideal — o que existe realmente é o lugar onde sua alma se aconchega e o corpo se liberta da tal realidade enfadonha que maltrata os olhos e impede os dedos de pincelar aquela ilusão que o cérebro germina. Pode ser um quarto escuro, o banco de uma praça ou o acento de um ônibus lotado — a mesa de um café ao fundo junto a uma janela de frente para uma rua movimentada. Seja qual for o cenário, o importante mesmo é encontrar-se em si mesmo.

 

Alguns escritores são mais vulneráveis às distrações do cotidiano do que outros. O inglês Charles Dickens, por exemplo, apesar de muito produtivo — só conseguia trabalhar no mais absoluto silêncio. Ele precisava de sua mesa cuidadosamente decorada e, de frente para uma janela. Já a inglesa Jane Austen parecia ser possuída por uma invejável concentração inabalável — a autora morava com a mãe, a irmã, uma amiga e três criadas numa casa que recebia visitas constantes. As interrupções não a impediram de escrever romances como Orgulho e Preconceito e Mansfield Park em pequenos pedaços de papel que ela escondia para dar atenção aos convidados.

 

Figuras indômitas que vivem imersas em manhas e manias — os escritores, em geral — são vistos como figuras excêntricas. Quem olha de longe — a primeira vista — talvez não os reconheça, mas basta alguns minutos de atenção para sabe-los. Introspectivos e silenciosos. Completamente desligados do mundo a sua volta. Sentados sempre no canto oposto a multidão — e totalmente focados em si mesmos. A melhor companhia para eles é um bloco de notas ou em tempos modernos, um computador. A presença humana ao lado deles é quase sempre dispensável porque escritores raramente não são figuras sociáveis.

 

É praticamente impossível citar um único escritor que não tenha um hábito estranho ou um vício dito maldito. Basta ler a biografia de certos senhores e senhoras para descobrir algumas de suas euforias. Virginia Woolf dizia que um escritor precisa ter um quarto pra chamar de seu com uma mesa e uma prateleira de livros. Honoré de Balzac tinha uma rotina de trabalho que para muitos beirava a insanidade. Ele jantava às 18 horas. Dormindo em seguida para acordar a 1 da madrugada e trabalhar até às 16 horas embalado por dezenas de xícaras de café. A escritora de suspense Patrícia Highsmith costumava beber uma dose de vodca antes de escrever e, Borges tinha sua cadeira cativa em um famoso café em Buenos Aires onde dizem, escreveu o seu melhor. 

 

Em tempos modernos, os Cafés das principais cidades do mundo tem sido povoada por escritores. As gerações se encontram sem o confronto direto. Uns escrevem novelas, outros romances. Alguns apenas rabiscam versos – mas a grande maioria se embriaga de café forte como se o líquido fosse  um elixir sagrado. Evandro Affonso Ferreira, autor de “minha mãe se matou sem dizer adeus” confessa “escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias, cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim”.

 

A Srta. Rowling escreveu seu primeiro Harry Potter  no aconchego de um café em Edimburgo “meu lugar ideal para escrever é em um grande café com um pequeno canto onde haja uma mesa perto de uma janela com uma boa vista para uma rua interessante para onde possa olhar de tempos em tempos em busca de inspiração. Gosto de café bem forte e, do movimentos dos baristas e dos frequentadores do lugar – nada me distraí ali, tudo me inspira. Senti muita falta desse cenário ao escrever meu novo livro” – lamenta-se a autora que por causa da sua fama, já não consegue mais exercer seu ritual de escrita.

 

Não há dúvidas que a autora do bruxo mais famoso do mundo ajudou a impulsionar em muitos escritores o desejo de escrever em Cafés que são ambientes onde o objeto de adoração é a xícara e o aroma que se precipita junto a um diálogo de iguais. O escritor ali ao lado é um estranho que passa em branco – não chama a atenção – pode ser visto como um estudante que prefere o lugar para não se sentir tão sozinho. Um profissional liberal que faz da mesa o seu local de trabalho ideal ou um simples leitor que quer um instante apenas para si – e, ali ao lado, o escritor a dizer-se em linhas…

 

Lembro-me do tempo em que café era pra mim a companhia para o bolo recém-assado nas tardes de março lá em casa — servido em canecas individuais – a gente se sentava a mesa e os diálogos se precipitavam. Era o nosso momento. Na casa da nona, as canecas de café vinham acompanhadas por uma fornada de biscoitos com gotas de chocolate lá pelas nove horas da noite. Naquele tempo a gente dormia cedo.

 

A minha primeira visita a um desses Cafés aconteceu em meados dos anos noventa — em Paris — cenário inusitado para os meus olhos. Lembro-me de ficar anestesiada com aquele lugar com mesas junto às calçadas e, do lado de dentro um falso fim de tarde que a decoração interna “provocava” nos olhos. Havia um sem fim de pessoas lendo jornais, livros, revistas – dialogando suas realidades e, apenas uma senhora a escrever sobre a perna direita em um caderno. Ela estava tão concentrada que parecia ser impossível demovê-la daquele gesto. Ao seu redor aconteciam diálogos inteiros — pela metade. Olhos buscavam por outros olhos. Mãos buscavam por outras mãos e, ela ali em seu silêncio imperturbável. De imediato — confesso — pensei em me apropriar daquele gesto que viria a se tornar uma espécie de ritual em meus dias. Sentar-me em uma mesa de Café é o mesmo que despertar meu consciente para outra realidade – inaugurando-me em mim mesma,  provando de minhas memórias em cada gole de café forte ou em cada movimento que se precipita junto a mim.

 

É justamente para esse lugar entre esquinas que levo o livro, o computador, o caderno de capa vermelha e as muitas notas mentais que se precipitam durante os passos pelas calçadas. Tudo isso se "ajunta" nessa espécie de diálogo — solitário — que as vezes alcança o outro que ocupa a mesa ao lado. Aqui em São Paulo eu ocupo as mesas da Starbucks desde que a mesma inaugurou seu espaço no ano de 2006 na Alameda Santos e, já tive que responder muitas vezes as mesma pergunta “como você consegue escrever num lugar desses com tanta gente entrando e saindo?” –  seria simples dizer que escrever é o mais solitário de todas as atividades e, na hora de enfrentar essa grande e devastadora solidão, cada um tem sua própria receita infalível…

 

Em tempos contemporâneos, ainda são muitos os escritores que sigam olhando de lado para os Cafés e seus cenários inusitados – sem se deixam seduzir – preferindo o conforto de seus quartos escuros. Alguns ainda confessam acalentar secretamente essa vontade como é o caso de Liliane Prata “na verdade, há três anos, quando comecei a trabalhar em casa, era esta cena que eu visualizava na minha cabeça: eu num café, com meu lap top, escrevendo. Seria minha vida refinada. Para que ficar sozinha o dia todo em casa, de pijama, na frente do computador, me virando com meu bule e meu coador de pano? Estaria num agradável café, comodamente ajeitada numa cadeira, bem concentrada, bem cosmopolita, pedindo mais um expresso. O fato é que três anos se passaram e eu continuo em casa, de pijama, na frente do computador, me virando com meu bule e meu coador de pano. Sempre vou a cafés, mas para ficar à toa, ler ou encontrar os amigos. Assim como continuo sem comer maçãs na rua”. Na mesma linha está também a jovem escritora Tatiana Kielberman  “confesso nunca ter me concedido a oportunidade de escrever em um café, nem mesmo de passar horas folheando meu livro predileto sob o aroma desta bebida que me é tão cara... Esses não deixam de ser desejos verdadeiros da alma, mas é como se precisassem de um planejamento, de todo um ritual para acontecer... Penso que, quando eu puder me desprender de normas ou regras, talvez consiga oferecer a mim mesma tais regalias de modo cotidiano... E, então, nem restam dúvidas de que não vou querer outra vida! Ah! Se precisasse escolher um local para debutar, certamente seria a Starbucks da Alameda Santos, em São Paulo, pois a partir dos cafés compartilhados com amigas, aquele ponto de encontro já se tornou sinônimo de aconchego e leveza para mim”.

 

O fato é que o escritor precisa encontrar uma posição confortável e, nela permanecer porque uma habilidade comum a todo escritor é a de sentar-se quieto para poder embalar sua monotonia. O estado criativo que embala a mente dos artistas geralmente culmina em um estado de espanto – onde tudo é possível, menos existir em si mesmo.

 

“Prefiro escrever de manhã, mas raramente consigo.
Há alguns anos abandonei meu quartinho e comecei a sair pra trabalhar.
Escolhi alguns Cafés da cidade. Quando engreno num conto ou romance,
tenho o hábito de anotar frases em papéis soltos e superfícies aleatórias —
já tomei muitas notas em guardanapos. Resolvo muita coisa nesses momentos,
quando não estou “oficialmente” escrevendo — é aí, em geral,
que as melhores ideias aparecem. Não existe prazer maior que passar
pro computador um bom trecho de prosa rascunhado num pedaço de guardanapo.
Parece que o mundo se organiza. Minha gasolina é o café, forte e sem açúcar, de preferência recém-passado no coador ou saído daquelas máquinas de expresso”.

 

Chico Mattoso
autor de Nunca vai embora.

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