sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Plural | Escrita Contemporânea…

 

 

escrita contemporânea

 

 

...é quase impossível afirmar quando se estabeleceu o período contemporâneo na arte brasileira. Nem mesmo os autores nos oferecem um consenso nesse sentido. Considera-se, contudo, que a arte contemporânea, em seus estilos, movimentos e escolas, tenha surgido como resposta à arte moderna, seguindo a corrente de se manifestar contrária à ordem, como aconteceu anteriormente com o Romantismo e, em seguida, com o Modernismo… 

 

Acredita-se que, depois da Segunda Guerra Mundial, os artistas mostraram-se voltados a uma reconstrução natural do mundo interior e exterior, utilizando-se de novas técnicas através do processo de experimentação… o que serviu para estabelecer novas possibilidades, gerando conflitos máximos e desorientações várias.

 

Todo o processo de ruptura leva, naturalmente, a um questionamento e, no caso da arte contemporânea, o estilo de vida amplamente difundido em cinema, moda, televisão e na literatura foi o mote para as criações futuras.

 

Em 1945, surgiu um dos movimentos que resultaria, possivelmente, no que hoje denominamos como sendo contemporâneo: a expressão "arte bruta" ou Art brut, em francês, concebida por Jean Dubuffet, visando dar nome à arte produzida por artistas livres de qualquer influência de estilos oficiais, incluindo as diversas vanguardas e as imposições do mercado de arte. Dubuffet via, no chamado "artista marginal" – termo este imposto pelo crítico Roger Cardinal –, uma forte motivação intrínseca, que culmina no uso de materiais até então impensáveis e técnicas inéditas ou improváveis.

 

Nos Estados Unidos, ao findar a Segunda Guerra, as condições econômicas impuseram uma nova ordem aos artistas, que se viram obrigados a fazer uso de um novo modo de pintar.

 

O pós-guerra criou um ambiente de dúvida, absurdo, medo, falta total de idealismo e, sobretudo, de possibilidades. A realidade dizia suas vertentes ingratas, levando muitos artistas ao suicídio causado por um desespero natural. Os sobreviventes se viam obrigados a experimentar... criando-se então uma estética abstrata ou "informal", para traduzir os sentimentos e impressões à sua agressividade.

 

Os artistas desenvolveram-se nesse cenário de liberdade, fazendo surgir o gosto pela mancha e pelo acaso, a preferência pelo rascunho e ao que, até então, era dito "inacabado". Nas letras, o uso das metáforas permitiu o "não dizer"… o repetir-se como forma de se fazer entender. O dizer pouco para não cansar.

 

Com um certo atraso, aconteceu o movimento underground ou Street Art que, segundo alguns críticos, veio refinar o movimento, transformando os traços das cidades… ocupando os cenários públicos, fazendo com que a arte deixasse os espaços fechados, indo viver ao ar livre.  Feito à revelia, esse "manifesto cultural" encontrou forte resistência junto à população e às autoridades, que se esforçaram em classificar esse estilo de arte como "vandalismo". Além do grafite, a arte urbana inclui estátuas vivas, malabaristas, mambembes, esquetes teatrais, interferências e outros... 

 

Na música, surgiu a chamada “canção de protestos”, com rimas carregadas em agressividade e versos marcados pela revolta. Na literatura, foi a vez das crônicas narrarem a realidade, acenando com a dureza das esquinas… narrando o desconforto de quem se encontra à margem de seus tempos – uma realidade até então recusada pela sociedade – que se viu impedida de fazê-los se calar.

 

O artista, acostumado até então à loucura de Dionísio, ao quarto escuro, ao mundo das formas inventadas, viu-se obrigado a enfrentar os cenários urbanos, a atmosfera carregada e o desconforto humano. É como se, de repente, o artista não fosse mais capaz de inventar o seu próprio mundo, onde tudo era estruturado a partir de ilusões que se estabeleciam pelo prazer de não ser igual…

 

O mais comum na literatura brasileira é, sem dúvida alguma, a literatura romântica, que marcou época e foi eleita como sendo a mais rica, profunda e merecedora de todos os louros da fama. Contra ela, surgiu anos mais tarde o Modernismo, baseado no movimento de mesmo nome na Europa... Os artistas, naqueles dias, queriam exaltar a terra, fazer uso do português popular, descaracterizando o formato coloquial que não vigorava nas ruas das principais cidades, cabendo o argumento apenas aos catedráticos, no caso, os escritores, que chegavam com suas riquezas ainda fundamentadas no imperialismo... A sociedade viu e não gostou, tal qual Monteiro Lobato, que insuflou a turbamulta contra os "modernistas", que viram seus nomes excluídos da história como se fossem meros "marginais" — estranhamente, anos mais tarde, seriam os "artistas marginais", consagrados pelo seu discurso intimista, pesado e agridoce, através de um diálogo consigo mesmos sobre as ranhuras da pele e os desacertos, a marcarem a literatura contemporânea...

 

Vimos surgir a voz de Ana Cristina Cesar, Lygia Fagundes Telles e tantos outros expoentes... que, nitidamente, aproveitaram-se da euforia dos Andrades — Mário e Oswald — para expressar suas sentimentalidades inéditas... mas, se antes o amor era a mola propulsora dos versos e rimas, a necessidade de ser e existir tornou-se o ritmo dos escritos contemporâneos, permitindo ensaios extensos acerca da matéria. 

 

Em meio a tamanha liberdade, o que percebemos é que, de tanto falar de si mesmo, o artista se distanciou do “objeto arte”, caindo no lugar comum das expressões… levando à estagnação dos temas. O que se vê no cenário artístico atual é o não saber fazer barulho, como tão bem o fez a arte moderna, causando incômodo e tirando o indivíduo de sua zona de conforto...

 

Repete-se aos quatro cantos o que se sabe e conhece… o que já se está acostumado. Não é dado a arte o direito de ultrapassar as místicas estabelecidas por um conjunto de senhores, caminhando no mesmo passo que a sociedade local, em silêncio, sem transcender, ficando difícil identificar e diferenciar o artista da pessoa comum.

O que temos, enquanto cenário, é esse regionalismo contínuo, com ideais e idéias que se repetem, como se ao contemporâneo fosse dada a permissão de refazer o que já foi feito, aplicando uma nova camada de tinta... fora isso, temos sorte de ter, em tempos, uma ou outra voz que salta o silêncio e, nos alcança.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Carta ao Leitor | Thelma Ramalho

 

Capa - plural maio

 

 

A poesia me foi apresentada por uma antiga coleção chamada O Mundo da Criança, eram 15 volumes, com versos e cantigas infantis, contos de fadas, musica, educação, era quase um Google.

 

Comecei a decorar versinhos ainda criança, durante a brincadeira de roda com os amigos... nos dávamos as mãos e, cantarolávamos até cair: "o cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada"...

 

Na escola conheci a Cecília: "ou isso ou aquilo"... será que foi com ela que aprendi a ser tão prática e sonhadora?

Ganhei os sonetos de amor do Vinicius como presente de quinze anos e os guardei na estante, mas eu insistia em dizer que não gostava de poesia.

 

Até que um dia, na dor de amor encontrei a explicação para tudo que sentia com o Neruda que "ele" me emprestou e que eu li por inteiro, ao contrário da música do Chico Buarque.

 

E a poesia é um mal contagiante, depois de um livro... queremos mais e, a cada dor e a cada lágrima, novos nomes surgiram traduzindo o que eu estava sentindo.

 

Florbela e seus poemas passionais... Hilda com versos em carne viva. Ana Cristina César mimeografando a vida... Manoel de Barros em sua simplicidade total. Adélia falando diretamente comigo, Emily em sua reclusão dizendo tanto do mundo... Drummond indo diretamente ao coração e,  as várias pessoas no Fernando... Ah! E o Quintana que me fez sentir seus versos. São tantos que nem posso enumerar, sempre ficará alguém para depois, logo mais, depois de amanhã...

 

Mas é preciso dizer que nos versos dos poetas, eu encontrei abrigo... e puder rir da pessoa que dizia que adorava ler mas detestava poesia…

 

A vida fica mais leve nos versos dos poetas porque a poesia está na vida, nos dias, nas horas, nas palavras, nos momentos, no pensamento. A poesia vive e se alimenta dentro da gente... nasce na escrita, na palavra dita.

Hoje eu afirmo que a poesia é nosso sentimento transformado em palavras... 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Personagem | Eugênio de Andrade

 

eugenio de andrade

 

Quando se conhece de fato um homem? Quando lhe sabemos o nome, o endereço, ou o número do documento? Dizem que é preciso sentar-se à mesa e provar de uma saca de sal em sua companhia. Será?  

 

Eu posso dizer que conheci Eugénio de Andrade: não o homem em si, mas o poeta que ofertou, em vida, pouco mais de  uma dúzia de versos e que, por escrever com a perfeição que me cabe dizê-la, foi considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos...

 

A primeira vez em que nos "encontramos" foi na voz de seu tradutor, Carlo Vittorio Cattaneo, que levou suas linhas para o italiano. Publicou-se "escrita de terra e outros epitáfios" — poemas escritos entre 1971 e 1972 que, segundo dizem, eram um punhado de versos escritos a partir das preocupações de Eugénio, que nasceu José Fontinhas... em Póvoa de Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa, situada entre o Fundão e Castelo Branco, filho de uma família de camponeses: "gente que trabalhava a pedra e a terra"...

 

O que se reúne "nesse primeiro caderno" é toda a poesia do autor até aqueles dias. Um livro. Um texto e a certeza de que talvez pudesse não haver muito mais. Nunca se sabe quando o poeta morre, sabe-se apenas quando o homem vem a falir suas funções, deixando o corpo para habitar um infinito. Um vale — talvez um labirinto — do qual não se escapa...

 

Embalados por lembranças, seus escritos obedecem a princípios comuns. É possível ouvir uma voz antiga a ecoar seus dias de menino... e, com ela, uma euforia natural, agradável. Seus poemas, geralmente curtos, mas de grande densidade e aparente simplicidade, privilegiam a evocação da plenitude da vida e dos sentidos. É possível perceber a figura materna, presença constante, a lhe estender a mão e dizer o caminho... como também se faz sentir a presença do tempo, numa confusão comum aos escritores. Ele se perde em presente, passado e futuro — misturando-os... Mas há outros muitos elementos, como a morte que fala alto, forte e, por fim, o tempo, que passa a ser uma espécie de sirene a soar forte na pele imersa em rugas. Percebemos então o envelhecimento do homem...

Figura ébria. Sem sol. Apenas nuvens num deserto de si mesmo. Sua poesia é chuva ácida a corroer os campos da alma de quem a toma para si... ele se ajoelha e confessa com um sorriso branco-manso-e-sem-desenhos-de lábios as suas linhas: "poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria"...

 

Eugénio não poupava o coração, que pulsou pela primeira vez em 10 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, no seio de uma família de camponeses. Passou a infância a correr pelos campos ao lado da mãe. Ali, ganhou seu olhar de horizonte e percebeu que o silêncio é bebida sagrada, dessas que bebericamos em pesados goles, sem que o cálice se esvazie... Eugénio soube, desde então,  que, depois que se prova desse "líquido abençoado", só é possível sangrar palavras...

 

Enquanto homem, habitou muitos lugares, sem pertencer a nenhum deles. Da mesma forma, sua palavra não encontrou esteio nos movimentos literários e, se não os ignorou completamente — olhou de canto de olho — mas não se ausentou das publicações em revistas...

 

Eugénio, o poeta, tinha uma escrita metafórica — imersa em ritmos — quase uma música que se ouve e decora, para repetir seus versos num fim de tarde qualquer, quando as lembranças saltam de dentro da  pele e a realidade é essa pausa necessária no tempo presente para se somar iguarias... "onde um beijo sabe a barcos e bruma / no brilho redondo e jovem dos joelhos / na noite inclinada de melancolia / procura. / Procura a maravilha”...

 

 

Urgentemente

 

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

 

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos, muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"