terça-feira, 30 de setembro de 2014

Alice | QUANDO O IMAGINÁRIO EMOLDURA O REAL

Por Tatiana Kielberman

 

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então”...

Lewis Carroll

 

 

 

Escrever é um compromisso que assumo comigo há tempos, mas sempre pensei palavras na tela ou na folha, nunca na própria pele, feito tatuagem... Talvez seja por isso que, vez ou outra, eu fique por horas inteiras observando o papel em branco, a imaginar as letras e seu percurso...

 

Foi como na noite de ontem, em que permaneci olhando para dentro, tendo como horizonte o lado de fora — e me perguntei, em meio aos desconfortos que embalo... Onde fica o mundo de Alice? Onde foram parar as fantasias que circundam meu universo e toda aquela leveza que — um dia qualquer — se fez tão próxima a mim?

 

A personagem a que me refiro acima, “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, sempre simbolizou em meu imaginário uma espécie de possibilidade encantadora... Um caminho para desvendar aquilo que me gerava tamanha recusa em um primeiro momento, pelo fato de o mundo lá fora limitar — quase sempre — o meu espaço a premissas específicas e poucas.

 

Ler Alice em tempos outros trazia compreensão ao meu coração de garota, ainda que superficialmente, sobre por que eu teimava em impor barreiras e empecilhos mil aos meus voos, sendo que havia tanto a gritar... tanto por fazer... tanto para ser!

 

A impressão que eu tinha era de que Alice, apesar do medo que sentia, não se furtava a percorrer seus infinitos labirintos. Ela queria, de qualquer modo, saber o que havia do outro lado. Arriscou-se a tecer diálogos com seres que lhe transmitiram estranheza em um primeiro momento, mas que depois se tornaram seus grandes parceiros de desafios.

 

Guiando minha perspectiva um pouco para trás, sinto que transitei a vida toda seguindo os passos de Alice. Quis ter sua ousadia. Sua audácia. Um jeito desajeitado, uma confiança desconfiada de si mesma, do outro e do ambiente que a cerca, mas que não abdica nunca de ouvir e atender a própria intuição.

 

Hoje, olho atenta para Alice e sinto que ela também me observa de volta. Espera um pouco mais do meu pulsar. Quer que eu desabroche as lições que, na teoria, pareço ter tomado para mim ao observá-la... Em muitos momentos, sinto o desejo genuíno de tirar as histórias do papel e finalmente vivenciá-las. Desprender o sentimento da ilusão e torná-lo palpável...

 

... mas, será que há mesmo uma fiel separação entre imaginário e realidade? E onde fica, afinal, o meu tão sonhado mundo de Alice em meio a esta trama?

 

Eis que, ao fechar os olhos por um segundo, descubro-me inteira como nunca antes me senti. Respiro profundamente e sinto o real e o ilusório juntos, caminhando de mãos dadas em meu íntimo, como se deles dependesse toda a estrutura do meu libertar... É na essência que vive Alice. E foi lá, também, que eu me permiti começar a viver...

domingo, 28 de setembro de 2014

Alice | Ilusionismo Moderno

Por Inge Lobato

 

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Olhe de perto, bem mais de perto. Você vê?
Os mágicos saíram dos palcos e agora estão ao nosso redor... vendendo ilusões cada vez mais belas. Escolha uma carta – apenas uma – pode ser qualquer uma...
Não me diga qual carta escolheu. Eu posso adivinhá-la.
Você escolheu a carta mágica que lhe dará dinheiro e sucesso instantâneos. Escolheu o belíssimo carro em que posa belo e também um estilo de vida badalado no Instagram.
Acertei?
De perto, um pouco mais de perto...
Como adivinhei? Simples. É mágica!
Eu posso lhe garantir que tudo isso é possível, meu caro, e que todos nós mágicos somos assim em tempo integral... e sua vida será assim também se você revender o revolucionário “kit de ilusionismo moderno instantâneo”, onde tudo parece mágico e real. O que ninguém vai lhe dizer é que tudo não passa de uma máscara para impressionar pessoas como você.
Perto, bem mais perto. Vamos, não seja tímido, escolha outra carta...
Vou adivinhar novamente: você deseja impressionar tanto as pessoas que a única coisa que enxerga na vida são as pessoas que estão o tempo todo tentando te impressionar. É um jogo de cartas marcadas... sorria, você está sendo filmado!
Você ainda não percebeu o truque? Chegue mais perto, bem mais perto, onde seus olhos não possam mais desviar sua atenção... porque é preciso está perto da ilusão, e longe da realidade. A verdade não vale nada. A mentira vende milhões.
Deixe a conta para amanhã, ignore as parcelas caras e ainda não pagas da vida inventada que você sonha em ter. Fotografe, escreva o que não tem, e passe pela porta.

Perto, bem mais perto...

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Plural | O mundo de Alice

Por Mariel Fernandes

 

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Aos covardes do amor, cem anos de solidão. Que vivam nas sombras das suas desculpas razoáveis, cheias de bom senso e justificativas plausíveis. Os conspiradores sabem por quem os sinos dobram e os abandonam, transformando a si mesmos em fantasmas da terra do nunca. Não se aventuram, por isso não se perdem. Evitam desafios marítimos, por isso não naufragam. Se acreditam à salvo das tempestades, por isso transformam a vida em sonhos de uma noite de verão.

Aos covardes do amor, uma certeza: vivem em guerra e paz com eles mesmos, são um estado de alma e escolhem ver a vida no cartão postal por acreditar que podem abrir mão da paisagem. Crendo nisso, se condenam a uma existência menor e seguem sorrindo em direção à outras vidas secas.

Aos covardes do amor a consciência de que crime e castigo andam juntos, mas não como pensam. Crime é abrir mão. Castigo é apenas sentir em rotina sonolenta o tempo e o vento passando.

Aos covardes do amor, mil e uma noites recheadas do sempre, esse que elege eterno tudo aquilo que não dura, se transformando no oposto da chama. Aos covardes do amor, a minha alegria perene. Sou o náufrago. Vivo em cidades invisíveis.

Acho paris uma festa. Existo súdito de um pequeno príncipe. Escrevi cartas ao amor distante. Embarquei num bonde chamado desejo. Enfrentei mil léguas submarinas, acredito em histórias extraordinárias e num admirável mundo novo. Sobretudo não troco meu naufrágio real pela irreal que separa o velho e o mar.

No fundo, prefiro ser um estrangeiro num mundo simpático aos miseráveis.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Alice | No mundo de Alice

Por Lunna Guedes

 

Nietzsche, considera que para alguém ser artista, também é necessário esquecer e, ignorar por que, para além do esquecimento é possível experimentar uma segunda inocência, que torna o homem mais infantil e, ao mesmo tempo, mais refinado.

 

Alice

 

A realidade não é uma mesma coisa, embora muitos pensem que sim... Jacques Lacan, em seus estudos, apontou que o psíquico do ser humano estrutura-se em três dimensões, que se articulam e se entrelaçam, assim definidas por ele como sendo: o Real, o Simbólico e o Imaginário.

 

O real, segundo sua formulação, não é a mesma coisa que a realidade, pois o real — diferentemente da realidade — não precisa de outros campos para existir.

 

O campo do real escapa à simbolização, portanto, ao contrário da realidade, existe por si mesmo, de maneira inerente ao nosso desejo e ao nosso poder. Querendo ou não, o sol se põe… a noite acontece, assim como o dia seguinte e, tudo tem o seu devido lugar no mundo real das coisas; desse modo, o real escapa à subjetividade humana.

 

A realidade, contudo, depende do humano e de todos os símbolos que este coleciona ao longo da primeira infância. Por isso, não é única — mas, na verdade, múltipla — e há muitos autores que a dizem infinita, justamente por ser subjetiva à nossa vontade. Podemos moldá-la, transformá-la... em alguns casos, podemos até mesmo editá-la.

 

Jacques Lacan afirmou que a realidade depende de como o indivíduo é concebido para o mundo quando ocorre — na primeira infância — a definição de seu psíquico, nesse instante, o individuo é influenciado pelo meio em que vive e pelo conjunto de símbolos que esse mundo oferece.

 

A literatura, enquanto arte, depende justamente de todos esses símbolos para acontecer. Logo, para um escritor trabalhar a realidade em seus escritos, é preciso identificá-la em si mesmo, lidando justamente com o seu psico, que também podemos chamar de, “o mundo de Alice”.

 

Acredita-se que um escritor, justamente pela riqueza de seu imaginário, tem mais facilidade para habitar o que muitos gostam de chamar de o “mundo de Dionísio” – termo esse usado por Nietzsche para definir a teoria da arte – que anuncia: "o desejo de ultrapassar o próprio destino, enfrentando-o, levando os heróis trágicos a transgredirem os limites da existência, desafiando os valores estabelecidos”.

 

Para ele, a arte é capaz de proporcionar experiências dionisíacas, sem que se seja aniquilado por elas, possibilitando a embriaguez sem que a perda da lucidez aconteça.

 

Nietzsche também afirma que a realidade dionisíaca não é para todos, por considerar que a experiência dionisíaca tende a permitir respirar na “mais monstruosa paixão e altitude”... exercício que requer saúde peculiar (sanidade plena), uma vez que o individuo será obrigado a vivenciar a perigosa aventura de percorrer os limites da alma: “a saúde pertence a quem tem sede na alma de percorrer com sua vida todo o horizonte dos valores e de quanto foi desejado até hoje, quem tem sede de circum-navegar as costas deste ideal mediterrâneo”.

 

Na contramão disso tudo está o leitor... que tem sede e bebe da inesgotável fonte criativa de seus leitores, alimentando-se dessa realidade, que pode ser ou não identificada ao ser tragada no momento da leitura. Por isso, a literatura comumente é dividida em real e fantástica.

 

A narrativa fantástica pega o leitor pelas mãos, conduzindo-o por uma espécie de mundo paralelo, onde é possível voar, ser eterno, azul... ser metade bicho, metade homem. Encontrar portas mágicas que conduzem a realidades diversas, mundos artificiais... é possível ser a Bela que se apaixona pela Fera. Um menino órfão que vai viver na Terra do Nunca.

 

E, ao ter contato com esse tipo de texto, o leitor, propenso à fantasia, acaba inserindo elementos fantásticos próprios à literatura e, o próximo passo é fazer parte de uma realidade outra, onde ele vê a si mesmo, voando ou habitando outros cenários tão reais quanto seu imaginário é capaz de afirmar que sejam.

 

Experimentam, por assim dizer, da “embriaguez dionísica”, sendo preciso apenas um único gole desse líquido sagrado.

 

Em paralelo a isso, existem os leitores que não conseguem se alimentar dessa “falsa realidade”, justamente por a considerarem demasiadamente fantasiosa, sendo impossível para suas mentes reconhecerem nesse “universo” uma possibilidade ou um conjunto de símbolos confiáveis. São seres que precisam do que é palpável, objetivo e mensurável. São os chamados leitores “pés no chão”.

 

A psicologia acredita que, na idade em que o mundo imaginário foi alimentado, algo aconteceu, impedindo o acúmulo de informações. Lacan afirma que, algum tempo após o nascimento, toda imagem do objeto ou coisa que é captada pelo bebê através do olhar será inscrita e registrada no seu psiquismo como pertencendo ao campo do imaginário, mas se algo – como um trauma – se sobrepõe, o imaginário simplesmente se liquefaz e não volta, em momento algum, a se reorganizar.

 

Assim sendo, o indivíduo experimenta a partir de então o que lhe é confiável: imagens reais, facilmente identificáveis, que lhe transmitem conforto, tais como o rosto de sua mãe, pai ou outra pessoa significativa para a criança. Logo, preferem narrativas comuns, próximas, que permitam a eles reconhecerem o que lhes são figuras familiares.

 

Uma rua sem saída, uma casa branca no meio do quarteirão ou o banco de uma praça num bairro conhecido de uma cidade que, mesmo tendo o nome citado, pode ser qualquer lugar do mundo...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Alice | Carta à Alice…

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.
(Alice no País das Maravilhas)
Lewis Carroll

 

 

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Querida Alice, embora eu viva no seu mundo, você quase não conhece o meu. Com exceção de uma rainha de copas que anda rondando minha vida, em mim quase tudo é maravilha. E devo isso a você.

 

O seu sonho adentrou dentro do meu sonho e ganhou asas. O tempo, esse tão curto que o Coelho avisou, passou ligeiro por aqui. — nem vi meu filho crescer. Hoje, olho do lado e vejo um homem naquele menino que ensinei as primeiras palavras — nem percebi o som da fala, o bigode desenhado. Eu sempre vi ali, um menino. O meu menino. Que ganha asas e voa pelo mundo, independente de mim.

 

As paredes me apertam aqui, Alice. E sufocam meus pensamentos na ligeireza dos dias. E beber o líquido da vida me faz tão pequena. No mundo falta água. E vejo aqui, onde moro, o desperdício dessa bebida tão essencial. Um dia aprenderemos? — sei lá! Tenho medo! — Acho que não.

 

Mas ainda assim, no dedilhar dos meus dias maravilhas me alcançam onde passo. O riso solto de uma criança. O voo do meu beija-flor Chiquinho que me visita todos os dias de manhã, como se despejasse em mim no seu cantar a maravilha de viver.

 

Os animais me perseguem como a ti, Alice. Tenho aqui no meu quintal libélulas dançantes no varal onde minhas roupas dançam para secar. Borboletas pousam entre o aconchego de minhas mãos e na delícia dos dias vejo uma maravilha de gente na vida. Vejo-me nas metamorfoses das rotinas e sou invariavelmente rompedora de casulos de sonhos, de vontades e de desejos.

 

Dentro dos meus sentidos, Alice, percebo as coisas que acontecem ao redor como se eu fosse uma personagem viva dessa história. Converso comigo mesmo e isso acontece com frequência, o que causa uma certa estranheza no meu cachorrinho que procura por pessoas invisíveis e abana o rabo como se me considerasse louca. Por falar em louca, me vem à cabeça a rainha de copas que vive rondando minha vida. Mas como o próprio Coelho amigo seu disse: “os poços da fantasia acabam sempre por secar e o contador de histórias, cansado tentou escapar como podia: o resto amanhã... Já é amanhã!”

 

Então, vamos lá, Alice... viver a vida esperando que o resto seja hoje por que o eterno dura apenas esse breve instante de viver.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Alice | País das maravilhas

 

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Quando menina li muito... sempre estimulada pelo meu pai, que não media esforços para aumentar nossa biblioteca, com os mais variados temas e autores.
Um dos livros que li foi Alice no País das Maravilhas... me encantei com cada personagem, e suas diversas características que o assemelham a um conto de fadas, quando lido por uma criança, mas que para adultos, ganha renovada dose de complexidade, dando asas a um sem fim de possibilidades.
Um paralelo entre a ficção e a realidade é por vezes, inevitável. Os adultos enxergam suas monstruosidades mais comuns, percebendo um jogo de manipulação de um individuo sobre o outro.
Na primeira cena do livro, Alice está sentada com a família, fazendo o que era comum na Inglaterra Vitoriana, em que tudo se explicava através dos livros e suas narrativas mais comuns. A menina começa a enfadar-se por nada ter o que fazer a não ser ler um livro sem figuras, apenas com diálogos. E o que quebra esse sentimento? A magia que ela mesma acalenta, mas desconhece – ao que tudo indica – e que vem a tona através de um coelho branco...
Cada um de nós tem dentro de si um país e uma pequena Alice, que pulsa e vibra em curiosidade e agitação... todos nós, em algum momento, nos sentimos esgotados, cansados e ao fechar aos olhos, ficando em silêncio, nos deparamos com fugas impunes que nos impulsiona ao desconhecido que somos. Tão atrativo, mas também tão perigoso olhar para dentro e entrar na toca do coelho...
Quando criança é tudo tão mais simples. É apenas um jogo onde a Alice vai de encontro a um mundo imaginário – dentro de um sonho, talvez – mas enquanto adultos, tudo tem duplo sentido, segundas intenções. É um constante jogo de cartas marcadas.
Os personagens que passam em nossa vida ao longo da vida são figuras dissonantes. Nunca sabemos o que serão de fato. Amigos ou inimigos. São possibilidades... alguns nos recebem em abraços demorados, outros nos furam os olhos com gestos inesperados. Exatamente como Alice e seu País.


Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.