quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Alice | No mundo de Alice

Por Lunna Guedes

 

Nietzsche, considera que para alguém ser artista, também é necessário esquecer e, ignorar por que, para além do esquecimento é possível experimentar uma segunda inocência, que torna o homem mais infantil e, ao mesmo tempo, mais refinado.

 

Alice

 

A realidade não é uma mesma coisa, embora muitos pensem que sim... Jacques Lacan, em seus estudos, apontou que o psíquico do ser humano estrutura-se em três dimensões, que se articulam e se entrelaçam, assim definidas por ele como sendo: o Real, o Simbólico e o Imaginário.

 

O real, segundo sua formulação, não é a mesma coisa que a realidade, pois o real — diferentemente da realidade — não precisa de outros campos para existir.

 

O campo do real escapa à simbolização, portanto, ao contrário da realidade, existe por si mesmo, de maneira inerente ao nosso desejo e ao nosso poder. Querendo ou não, o sol se põe… a noite acontece, assim como o dia seguinte e, tudo tem o seu devido lugar no mundo real das coisas; desse modo, o real escapa à subjetividade humana.

 

A realidade, contudo, depende do humano e de todos os símbolos que este coleciona ao longo da primeira infância. Por isso, não é única — mas, na verdade, múltipla — e há muitos autores que a dizem infinita, justamente por ser subjetiva à nossa vontade. Podemos moldá-la, transformá-la... em alguns casos, podemos até mesmo editá-la.

 

Jacques Lacan afirmou que a realidade depende de como o indivíduo é concebido para o mundo quando ocorre — na primeira infância — a definição de seu psíquico, nesse instante, o individuo é influenciado pelo meio em que vive e pelo conjunto de símbolos que esse mundo oferece.

 

A literatura, enquanto arte, depende justamente de todos esses símbolos para acontecer. Logo, para um escritor trabalhar a realidade em seus escritos, é preciso identificá-la em si mesmo, lidando justamente com o seu psico, que também podemos chamar de, “o mundo de Alice”.

 

Acredita-se que um escritor, justamente pela riqueza de seu imaginário, tem mais facilidade para habitar o que muitos gostam de chamar de o “mundo de Dionísio” – termo esse usado por Nietzsche para definir a teoria da arte – que anuncia: "o desejo de ultrapassar o próprio destino, enfrentando-o, levando os heróis trágicos a transgredirem os limites da existência, desafiando os valores estabelecidos”.

 

Para ele, a arte é capaz de proporcionar experiências dionisíacas, sem que se seja aniquilado por elas, possibilitando a embriaguez sem que a perda da lucidez aconteça.

 

Nietzsche também afirma que a realidade dionisíaca não é para todos, por considerar que a experiência dionisíaca tende a permitir respirar na “mais monstruosa paixão e altitude”... exercício que requer saúde peculiar (sanidade plena), uma vez que o individuo será obrigado a vivenciar a perigosa aventura de percorrer os limites da alma: “a saúde pertence a quem tem sede na alma de percorrer com sua vida todo o horizonte dos valores e de quanto foi desejado até hoje, quem tem sede de circum-navegar as costas deste ideal mediterrâneo”.

 

Na contramão disso tudo está o leitor... que tem sede e bebe da inesgotável fonte criativa de seus leitores, alimentando-se dessa realidade, que pode ser ou não identificada ao ser tragada no momento da leitura. Por isso, a literatura comumente é dividida em real e fantástica.

 

A narrativa fantástica pega o leitor pelas mãos, conduzindo-o por uma espécie de mundo paralelo, onde é possível voar, ser eterno, azul... ser metade bicho, metade homem. Encontrar portas mágicas que conduzem a realidades diversas, mundos artificiais... é possível ser a Bela que se apaixona pela Fera. Um menino órfão que vai viver na Terra do Nunca.

 

E, ao ter contato com esse tipo de texto, o leitor, propenso à fantasia, acaba inserindo elementos fantásticos próprios à literatura e, o próximo passo é fazer parte de uma realidade outra, onde ele vê a si mesmo, voando ou habitando outros cenários tão reais quanto seu imaginário é capaz de afirmar que sejam.

 

Experimentam, por assim dizer, da “embriaguez dionísica”, sendo preciso apenas um único gole desse líquido sagrado.

 

Em paralelo a isso, existem os leitores que não conseguem se alimentar dessa “falsa realidade”, justamente por a considerarem demasiadamente fantasiosa, sendo impossível para suas mentes reconhecerem nesse “universo” uma possibilidade ou um conjunto de símbolos confiáveis. São seres que precisam do que é palpável, objetivo e mensurável. São os chamados leitores “pés no chão”.

 

A psicologia acredita que, na idade em que o mundo imaginário foi alimentado, algo aconteceu, impedindo o acúmulo de informações. Lacan afirma que, algum tempo após o nascimento, toda imagem do objeto ou coisa que é captada pelo bebê através do olhar será inscrita e registrada no seu psiquismo como pertencendo ao campo do imaginário, mas se algo – como um trauma – se sobrepõe, o imaginário simplesmente se liquefaz e não volta, em momento algum, a se reorganizar.

 

Assim sendo, o indivíduo experimenta a partir de então o que lhe é confiável: imagens reais, facilmente identificáveis, que lhe transmitem conforto, tais como o rosto de sua mãe, pai ou outra pessoa significativa para a criança. Logo, preferem narrativas comuns, próximas, que permitam a eles reconhecerem o que lhes são figuras familiares.

 

Uma rua sem saída, uma casa branca no meio do quarteirão ou o banco de uma praça num bairro conhecido de uma cidade que, mesmo tendo o nome citado, pode ser qualquer lugar do mundo...

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